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Encontremos -nos todos diante do amor de Deus...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Exortação Apostólica postsinodal “Verbum Domini”





Vaticano publica a Exortação Apostólica postsinodal “Verbum Domini” que convida a redescobrir a centralidade de Deus na vida pessoal e da Igreja, apelando ao diálogo e ao compromisso pela transformação do mundo.



Redescobrir a centralidade de Deus na vida pessoal e da Igreja e a urgência e a beleza de anunciá-la para a salvação da humanidade como testemunhas convencidas e credíveis do Ressuscitado: esta em síntese a mensagem de Bento XVI na Exortação apostólica postsinodal “Verbum Domini”, que recolhe as reflexões e as propostas que emergiram do Sínodo dos Bispos efetuado no Vaticano em Outubro de 2008 sobre o tema “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja.

O Documento é um apelo apaixonado dirigido pelo Papa aos pastores, aos membros da vida consagrada e aos leigos a terem uma familiaridade cada vez maior com a Sagrada Escritura, nunca esquecendo que no fundamento de toda a autêntica e viva espiritualidade cristã se encontra a Palavra de Deus anunciada, escutada, celebrada e meditada na Igreja. “Num mundo que, muitas vezes, sente Deus como supérfluo ou estranho, não há maior prioridade do que esta: reabrir ao homem de hoje o acesso a Deus, ao Deus que fala e comunica o seu amor”, escreve.

O Papa defende que a relação com a Bíblia deve levar a um compromisso efetivo para “tornar o mundo mais justo”, denunciando “sem ambiguidades as injustiças” e promovendo “a solidariedade e a igualdade”. “O compromisso pela justiça e a transformação do mundo é constitutivo da evangelização”, refere o documento. A Palavra de Deus, acrescenta Bento XVI, é também “fonte de reconciliação e de paz”, pelo que as religiões “não podem nunca justificar a intolerância ou as guerras”. “Não se pode usar a violência em nome de Deus”, sustenta. A exortação – documento eminentemente catequético – sublinha que a Sagrada Escritura contém resposta às inquietações da sociedade atual.


O Papa lamenta que, sobretudo no Ocidente, se divulgue a ideia de que “Deus seja alheio à vida e aos problemas dos homens e que a sua presença pode ser uma ameaça à autonomia” do ser humano. Para Bento XVI, “só Deus responde à sede que há no coração de cada homem”, pelo que é fundamental para a Igreja “apresentar a Palavra de Deus na sua capacidade de dialogar com os problemas que o homem tem de enfrentar na vida cotidiana”.


O Papa lembra que a Igreja “reconhece como parte essencial do anúncio da Palavra o encontro, o diálogo e a colaboração com todos os homens de boa vontade, particularmente com as pessoas pertencentes às diversas tradições religiosas da humanidade”.


Esse diálogo, no entanto, “não seria fecundo, se não incluísse também um verdadeiro respeito por todas as pessoas, para que possam aderir livremente à sua própria religião”. O documento lança ainda um apelo em favor de um “renovado encontro entre Bíblia e culturas”. “Quero reafirmar a todos os agentes culturais que nada têm a temer da sua abertura à Palavra de Deus, que nunca destrói a verdadeira cultura, mas constitui um estímulo constante para a busca de expressões humanas cada vez mais apropriadas e significativas”, diz o Papa.


Bento XVI refere, neste contexto, a necessidade de “recuperar plenamente o sentido da Bíblia como grande código para as culturas”, promovendo o seu conhecimento nas escolas e universidades e superando “antigos e novos preconceitos”. A inculturação, alerta, “não deve ser confundida com processos de adaptação superficial, nem mesmo com a amálgama sincretista que dilui a originalidade do Evangelho para torná-lo mais facilmente aceitável”.


Os meios de comunicação social também merecem uma palavra de relevo, com o Papa a “agradecer aos católicos que lutam com competência por uma presença significativa no mundo dos mass media, solicitando um empenhamento ainda mais amplo e qualificado”. A exortação fala no “papel crescente” da Internet, que constitui “um novo fórum onde fazer ressoar o Evangelho, na certeza, porém, de que o mundo virtual nunca poderá substituir o mundo real”.

Fonte: Rádio Vaticano

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Viva Maria Mae Aparecida!



Desde o descobrimento do Brasil uma nova força encheu de esperanças a Coroa Portuguesa, para conseguir êxito na colonização das terras descobertas. Era a força espiritual, representada pelos padres da Companhia de Jesus (Jesuítas), que apesar de recém-fundada, tinha conquistado a confiança do Rei Dom João III, que decidiu dar-lhes auxílio e proteção.

Por isso os padres jesuítas tiveram a honra de iniciar no Brasil um profundo trabalho catequético, com a ajuda da Monarquia Portuguesa. E com muita coragem e disposição dedicaram-se à conversão e evangelização das ferozes e selvagens tribos indígenas que povoavam nossa terra.

Dentre os muitos e audazes Padres que exercitaram heroicamente o ideal cristão em terras brasileiras, mencionamos Padre Manoel da Nóbrega, Padre Navarro, Padre Galvão e Padre José de Anchieta, que fundaram e trabalharam ativamente nos núcleos de colonização, que hoje são notáveis e importantes cidades, como São Paulo, Vitória, São Vicente, Anchieta e muitas outras.

A preocupação inicial era formar o povoado, construindo escolas, ambulatórios, centro de catequese, a fim de facilitar a fixação e o enraizamento do índio e de sua família, inclusive procurando catequiza-los no próprio idioma indígena. Com este procedimento racional, os padres criaram condições favoráveis para que as comunidades crescessem e se ampliassem.

Entre as diversas tribos existentes, algumas eram nômades, não se fixavam por longo tempo em nenhum lugar. Por isso mesmo, mereceram uma atenção mais especial dos Jesuítas, porque não permanecendo nos povoados, ao se deslocarem para outras regiões geralmente levavam algumas pessoas que já residiam na comunidade e causavam com a partida, um certo desânimo naqueles que permaneciam. E foi assim que a perseverança admirável dos missionárias, depois de insistentes tentativas, conseguiram vencer a resistência indígena e vagarosamente foi-se observando um processo de fixação, fazendo com que eles assumissem os deveres, obrigações e regalias no povoado sabiamente orientados pelos prelados. Organizaram um esquema de trabalho permanente, que os mantinha os índios sempre ocupados, produzindo para eles mesmos e para a comunidade.

Por outro lado, felizmente aquelas revoluções religiosas que ocorreram na Europa no século XVI e causaram tanto mal, não afetaram e nem influenciaram em nada, a nascente vida religiosa brasileira. O país nasceu sob o signo da Cruz, fiel ao evangelho do SENHOR JESUS e submissa a hierarquia eclesiástica apostólica romana, e assim continua até hoje. Em 1550 foi constituída a Diocese da Bahia e em 1575 fundada a Diocese do Rio de Janeiro. Hoje, o Brasil possuí dezenas de Arquidioceses, centenas de Dioceses, dezenas de Prelazias, diversas Eparquias e mais de 10.000 Paróquias espalhadas por todo o território nacional.

OS BANDEIRANTES
No alvorecer do século XVIII, os povoados já apresentavam um notável crescimento e o comércio era intenso pela multiplicidade de transações, movimentando e estimulando os habitantes que buscavam a conquista e consolidação de uma boa condição financeira. Foi quando também surgiu a "febre do ouro" , uma procura nervosa e obstinada do precioso metal, alimentando a idéia e o sonho em muita gente que queriam enriquecer de qualquer maneira.

A procura sistemática e corajosa, começou com os bandeirantes que partiam de Taubaté, SP, em demanda ao interior agreste, detendo-se em muitos lugares, onde imaginavam encontrar o ouro. Andavam pelos montes verdes e rochosos, varando torrentes, escalando tombadouros, passando por divisores de água e alcançando vales imensos, nos quais renascia sempre uma esperança de êxito, de concretizar o objetivo de suas incursões, satisfazendo a ambição e a audácia.

O ciclo das esmeraldas tinha encerrado com a morte do destemido bandeirante Fernão Dias. Agora era a vez dos bandeirantes José Gomes de Oliveira e seu ajudante Vicente Lopes, que saíram do Rio Paraíba, próximo a Taubaté e foram até as nascentes do Rio Doce em Minas Gerais, à procura de ouro. Depois veio Antônio Rodrigues Arzão, que seguindo o mesmo caminho, encontrou areias auríferas no Rio Casca. Depois vieram Salvador Fernando Furtado, Carlos Pedroso da Silveira, Bartolomeu Bueno, Tomás Lopes de Camargo, Francisco Bueno da Silva e muitos outros, que atingiram o cerro Tripui, criaram o primeiro povoado de Ouro Preto e descobriram também numerosas jazidas em Mariana e no Rio das Mortes.

AS MINAS DE OURO
As notícias se espalharam ligeiras, afinal era uma surpresa agradável e prometedora que excitou as pessoas e enervou todas as regiões do Brasil Colonial. Para as minas acorreram gente de todas as classes, cores e níveis sociais, ansiosos e cheios de esperança, vislumbrando a possibilidade de ganharem muito dinheiro. As jazidas foram literalmente invadidas por homens, mulheres, crianças e idosos, que largaram empregos e propriedades, para se aventurarem na extração do ouro.

Mas no meio de tanta gente, de pensamentos e instruções tão heterogêneos, começou a acorrer o inevitável representado por mal-entendidos, discussões, provocações, as pequenas brigas e os primeiros conflitos sérios entre os mineiros antigos e os novos mineradores. O ambiente degenerou de tal modo, que culminou com brigas violentas e muitas mortes, na longa e primitiva guerra dos "Emboabas".

A partir desta época, as dificuldades aumentaram para a maioria daqueles que demandavam às minas, porque eram assaltados e roubados, perdiam as suas economias e a condição mínima para poderem viver, por isso se sujeitavam as exigências dos "aliciadores" de mão de obra, que impunham um trabalho escravo com um máximo de empenho em troca de um salário reduzido. Também os negros trazidos da África como escravos, nos famosos e detestáveis navios negreiros e chegaram ao Brasil a partir do inicio do século XVI e mais precisamente, desde o ano 1540, eram levados para as minas onde trabalhavam sem cessar, para satisfazer a gula insaciável de enriquecimento de seus patrões. Suportavam uma cruel tirania em benefício de poucas pessoas que comandavam o esquema da extração mineral.

COROA PORTUGUESA
O Rei de Portugal tentou por diversas formas acabar com as brigas e criar normas para a exploração do ouro, objetivando proteger as classes menos favorecidas e garantir também a cobrança de seu imposto, que era de 1/5 sobre o total extraído, ou seja, 20% da produção global de ouro. Com este objetivo determinou que o metal fosse fundido em barras com o carimbo do Império, para serem autorizadas a sua comercialização.

Todavia, diversos fazendeiros, principalmente no interior de Minas Gerais, montaram instalações e adestraram um pessoal a fim de fazer a extração e o beneficiamento do metal, objetivando fugir do pagamento do Imposto de 20% (vinte por cento) exigido pelo Rei de Portugal. Dessa forma, eles fabricavam nas suas fundições as barras de ouro e aplicavam um carimbo do Império falsificado com tanta perfeição, que ninguém percebia e assim, comercializavam o ouro sem qualquer dificuldade.

CAPITANIA DE SÃO VICENTE
Como o quadrilátero aurífero de Minas Gerais pertencia a Capitania do Rio de Janeiro que territorialmente abrangia o atual Estado do Rio de Janeiro, Estado de Minas Gerais e Estado de São Paulo, por carta régia de 9 de Novembro de 1709, o Rei de Portugal desmembrou a Capitania em duas, mantendo a Capitania do Rio de Janeiro onde está o atual Estado do Rio de Janeiro, e a Capitania de São Vicente que abrangia os Estados de São Paulo e Minas Gerais. Os portugueses esperavam que com esta divisão, pudessem manter um maior controle sobre as minas e acabar de modo efetivo com as guerras e roubos, a fim de que o povo: escravos, brancos e índios, não fossem completamente explorados pela ganância irresistível de uma pequena classe privilegiada.

Artur de Sá foi o primeiro Governador da Capitania recém fundada de São Vicente e logo, implantou com certo sucesso uma organização na exploração do ouro, além de um severo policiamento para manter a disciplina e a ordem no garimpo. Mas na realidade, conseguiu isto por pouco tempo. A cobiça era muito grande e em conseqüência, oferecia uma perigosa margem para tramas diabólicas. Não havia fraternidade e nem piedade, uns poucos ganhavam fortunas, enquanto a maioria que realmente trabalhava, estava subjugada e escravizada. Para estes, a única solução possível, para neutralizar o peso da escravidão e aliviar os seus sofrimentos, era voltar-se para DEUS, com súplicas fervorosas, acompanhadas de muitas lágrimas e muita fé, pedindo ao CRIADOR que lhes concedessem misericórdia e justiça.

GOVERNADOR DA CAPITANIA
Dom Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos, homem de poucas palavras e muito religioso, pertencia a uma das mais ilustres famílias do Reino Português, tendo realizado em ocasiões diferentes, diversos serviços para o seu país, na Europa e nas Colônias Portuguesas de Ultramar.

Nasceu em 1688, estudou artes militares e estreou muito jovem na carreira das armas, lutando na guerra de sucessão na Espanha e depois, foi encarregado de trazer de retorno à Portugal, a tropa militar Portuguesa, durante o armistício que antecedeu a assinatura do tratado de Utrech.

Em 1716 concorreu com mais oito candidatos, atendendo ao convite da Coroa Portuguesa, para provimento do cargo de Governador e Capitão Geral da Capitania de São Vicente, no Brasil, cuja área abrangia os atuais Estados de São Paulo e Minas Gerais. Venceu o concurso por suas inegáveis e admiráveis qualidades. Em 22 de Dezembro de 1716, por despacho do Rei de Portugal, Dom João V, foi nomeado para o posto, sendo o terceiro Governador na história da Capitania.

Além do título de Conde de Assumar, possuía outros: Comendador da Ordem de São Cosme e Damião de Azere, Comendador da Ordem de Cristo do Conselho de Sua Majestade, Vice-Rei das Índias, Marquês de Caste o Novo e de Alorna, Sargento Mor de Batalha de seus Exércitos.

Antes de terminar o seu mandato governamental de 4 anos na Capitania de São Vicente, no ano de 1720 desmembrou sua Capitania em duas, por causa da grandeza do território, separando São Paulo de Minas Gerais, justamente definindo as áreas que hoje são ocupadas pelos dois Estados.

O Conde embarcou em Lisboa para o Brasil, chegando ao Rio de Janeiro em Junho de 1717.

No mês de Agosto seguiu de navio para Santos, fazendo escala em Parati, onde deixou sua bagagem, que foi transportada por terra para a Vila de Guaratinguetá. De Santos viajou para São Paulo, a fim de tomar posse na sede da Capitania, onde chegou no dia 4 de Setembro.

No dia 8 de Setembro, dedicado a celebração da Natividade de NOSSA SENHORA, mandou um emissário levar às Minas, a Certidão de sua posse.

VIAGEM ÀS MINAS
A Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº 3, de 1939, publicou nas páginas 295 a 316, o Diário completo da jornada feita por Dom Pedro de Almeida, desde o Rio de Janeiro até São Paulo, e desta cidade até as Minas em Ouro Preto e Mariana, no ano de 1717, um precioso documento descoberto no Arquivo do Governo Português, em Lisboa.

No dia 26 de Setembro de 1717, mandou outro emissário às Minas, para avisar a todos administradores de sua próxima visita. A viagem tinha como objetivo primordial conhecer e verificar as condições de trabalho nas Minas de Ribeirão do Carmo, hoje cidade de Mariana, nas Minas de São João Del Rei e de Vila Rica de Ouro Preto.

No dia seguinte, saiu de São Paulo e rumou em direção ao Vale Paraíba, parando primeiro em Mogi das Cruzes, depois em Jacareí, Caçapava, Taubaté, Pindamonhangaba, chegando à Vila de Guaratinguetá no dia 17 de Outubro e lá permaneceu até o dia 30, esperando por sua bagagem que havia deixado em Parati para ser enviada à Guaratinguetá em tropa de animais, onde só chegou no dia 28.

VEREADORES PREPARAM UM BANQUETE
Aqui, é particularmente importante fixarmos esta data de 17 de Outubro de 1717, porque existia dúvidas sobre a data exata da chegada de Sua Excelência, o Governador da Capitania, a Guaratinguetá. A mencionada Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, publicando o Diário completo da viagem, eliminou definitivamente todas as controvérsias sobre a data.

Na véspera, a Câmara Municipal contratou diversos pescadores para trazerem uma boa quantidade de peixes, que seriam preparados para o banquete, que foi elaborado com todo o requinte, objetivando agradar o Governador e sua comitiva.


Acesso ao Porto de ItaguaçúPREPARATIVOS
Estavam no anoitecer do dia 16 de Outubro de 1717 e a temperatura era agradável, com uma suave brisa que agitava as ramadas das árvores. Os pescadores fizeram seus preparativos, colocaram as canoas no Rio Paraíba e remaram em busca dos peixes, fazendo os primeiros lanços de rede no porto de José Correia Leite. Com bastante habilidade e perícia, lançavam e recolhiam a rede em diversos lugares, mas os peixes não apareciam. As horas corriam ligeiras, o relógio já marcava 23 horas, sem que as redes dos barcos espalhados em diferentes áreas, conseguissem trazer um peixe sequer. Desiludidos, quase todos os pescadores abandonaram a pescaria aproximadamente a meia-noite, certos de que aquele dia não era próprio para a pescaria, como diziam: " os peixes tinham sumido do rio". Só permaneceu um barco, com Domingos Alves Garcia, seu filho João Alves e Felipe Pedroso, cunhado de Domingos e tio de João.

PORTO DE ITAGUAÇÚ
Já rompia o dia com o clarão dos primeiros raios de sol, e os três pescadores estavam bem distantes do local onde iniciaram a pescaria. Aproximavam-se do porto de Itaguaçu, sem que seus esforços tivessem sido recompensados com uma boa quantidade de peixes. O Rio Paraíba que era o sustento deles, nunca tinha se portado assim, tão hostil. Mas não podiam desanimar, porque precisavam do dinheiro que receberiam com a venda dos peixes. Tinham sérios compromissos à serem atendidos e também, não é todo dia que chega um visitante ilustre em Guaratinguetá para ensejar-lhes a oportunidade de comercializar muitos peixes. Era uma chance que precisava ser aproveitada. Por causa da visita do Governador da Capitania, tinham sido recomendados pelo pessoal da Câmara: "se levassem muitos peixes seriam bem remunerados".

João Alves, o mais jovem, chegou a exclamar: "será que pescaram todos os peixes do rio e esqueceram de nos avisar?" E no silêncio da madrugada só se ouvia o riso humorado dos três, que sem compreenderem o que acontecia, comentavam o fato com tranqüilidade de espírito e plena aceitação da ocorrência , sem apelações, impropérios ou qualquer manifestação rancorosa. Sem dúvida, precisavam dos peixes e lutavam tenazmente para conseguí-los, mas aceitavam com dignidade o fracasso da pescaria.

Agora estavam no porto de Itaguaçú ... O suor brotava de suas fontes morenas, queimadas pelo sol, enquanto perseverantemente insistiam na faina de lograr êxito na pescaria. E aí aconteceu o imprevisível...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

MEU POVO POR PIEDADE NAO VOTEM NO PT NAO VOTE EM DILMA!!!

Posso votar no PT?
(uma questão moral)

1. Existe algum partido da Igreja Católica?
A Igreja, justamente por ser católica, isto é, universal, não pode estar confinada a um partido político. Ela “não se confunde de modo algum com a comunidade política”[1] e admite que os cidadãos tenham “opiniões legítimas, mas discordantes entre si, sobre a organização da realidade temporal”[2].
2. Então os fiéis católicos podem-se filiar a qualquer partido?
Não. Há partidos que abusam da pluralidade de opinião para defender atentados contra a lei moral, como o aborto e o casamento de pessoas do mesmo sexo. “Faz parte da missão da Igreja emitir juízo moral também sobre as realidades que dizem respeito à ordem política, quando o exijam os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas”[3].
3. O Partido dos Trabalhadores (PT) defende algum atentado contra a lei moral?
Sim. No 3º Congresso do PT, ocorrido entre agosto e setembro de 2007, foi aprovada a resolução “Por um Brasil de mulheres e homens livres e iguais”, que inclui a “defesa da autodeterminação das mulheres, da descriminalização do aborto e regulamentação do atendimento a todos os casos no serviço público”[4].
4. Todo político filiado ao PT é obrigado a acatar essa resolução?
Sim. Para ser candidato pelo PT é obrigatória a assinatura do Compromisso do Candidato Petista, que “indicará que o candidato está previamente de acordo com as normas e resoluções do Partido, em relação tanto à campanha como ao exercício do mandato” (Estatuto do PT, art. 128, §1º[5]).
5. Que ocorre se o político contrariar uma resolução do Partido como essa, que apoia o aborto?
Em tal caso, ele “será passível de punição, que poderá ir da simples advertência até o desligamento do Partido com renúncia obrigatória ao mandato” (Estatuto do PT, art. 128, §2º). Em 17 de setembro de 2009, dois deputados foram punidos pelo Diretório Nacional. O motivo alegado é que eles “infringiram a ética-partidária ao ‘militarem’ contra resolução do 3º Congresso Nacional do PT a respeito da descriminalização do aborto”[6].
6. O PT agiu mal ao punir esses dois deputados?
Agiu mal, mas agiu coerentemente. Sendo um partido abortista, o PT é coerente ao não tolerar defensores da vida em seu meio. A mesma coerência devem ter os cristãos não votando no PT.
7. Mas eu conheço abortistas que pertencem a outros partidos, como o PSDB, o PMDB, o DEM...
Os políticos que pertencem a esses partidos podem ser abortistas por opção própria, mas não por obrigação partidária. Ao contrário, todo político filiado ao PT está comprometido com o aborto.
8. Talvez haja algum político que se tenha filiado ao PT sem prestar atenção ao compromisso pró-aborto que estava assinando...
Nesse caso, é dever do político pró-vida desfiliar-se do PT, após ter verificado o engano cometido.
9. Houve políticos que deixaram o PT e se filiaram ao Partido Verde (PV). Os cristãos podem votar neles?
Infelizmente não. Ao deixarem o PT e se filiarem ao PV, eles trocaram o seis pela meia dúzia. O PV é outro partido que exige de seus filiados a adesão à causa abortista. Seu estatuto diz: “São deveres dos filiados ao PV: obedecer ao Programa e ao Estatuto” (art. 12, a )[7]. E o Programa do PV, ao qual todo filiado deve obedecer, defende a “legalização da interrupção voluntária da gravidez”[8].
10. Que falta comete um cristão que vota em um candidato de um partido abortista, como o PT?
Se o cristão vota no PT consciente de tudo quanto foi dito acima, comete pecado grave, porque coopera conscientemente com um pecado grave. O Catecismo da Igreja Católica (n. 1868) ensina sobre a cooperação com o pecado de outra pessoa: “O pecado é um ato pessoal. Além disso, temos responsabilidade nos pecados cometidos por outros, quando neles cooperamos: participando neles direta e voluntariamente; mandando, aconselhando, louvando ou aprovando esses pecados; não os revelando ou não os impedindo, quando a isso somos obrigados; protegendo os que fazem o mal.” Ora, quem vota no PT, de fato aprova, ou seja, contribui com seu voto para que possa ser praticado o que constitui um pecado grave.

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PT: Partido ou Religião?
Quando um cidadão encontra o Partido dos Trabalhadores, encontra um tesouro. Vale a pena vender tudo para comprar o campo onde o tesouro está enterrado. O PT não é o melhor dos partidos políticos. É o único partido verdadeiro. Os outros são simulacros de partido.
A alegria de ter encontrado a verdade, faz com que o cidadão, para filiar-se ao PT, renuncie a tudo. Uma vez filiado, ele não terá mais direito de escolher seus candidatos. Seu dever será “votar nos candidatos indicados” pelo Partido. (Estatuto do Partido dos Trabalhadores, aprovado em 05/10/2007, art. 14, inciso VI). Se for candidato a um mandato parlamentar, deverá reconhecer expressamente que o mandato não é seu, mas que “pertence ao partido” (art. 69, inciso I). A obediência ao Partido é sagrada. Está acima de tudo: de suas opiniões pessoais, de suas convicções, das reivindicações dos eleitores. Só em casos extremamente excepcionais, o parlamentar poderá ser dispensado de cumprir as ordens do alto, para seguir sua consciência ou o clamor dos que nele votaram (art. 67 § 2º).
Com alegria o filiado pagará anualmente uma contribuição proporcional ao seu rendimento (art. 170). Se ocupar um cargo executivo ou legislativo, a contribuição não será anual, mas mensal, obedecendo a uma tabela progressiva (art. 171 e 173). Mas a alegria de ser filho do verdadeiro Partido faz com que todas essas imposições pareçam leves.
Dentro do Partido, zela-se não só pela unidade (“que todos sejam um”), mas pela uniformidade. Frações, públicas ou internas ao Partido, são expressamente proibidas (art. 233 §4º). No entanto, os filiados podem organizar-se em “tendências” (art. 233). Estas, porém, estão submissas às decisões partidárias e ao encaminhamento prático do Partido (art. 238). Nenhum filiado poderia, por exemplo, organizar uma tendência para combater o “casamento” de homossexuais ou a legalização do aborto, que são bandeiras do Partido. As tendências não podem ter sedes próprias (art. 235 “caput”), não podem reunir-se com não-filiados (art. 235 §3º) e não podem difundir suas posições fora do Partido (art. 236 §1º). Mesmo que uma tendência deseje publicar documentos seus contendo posições oficiais do Partido, está proibida de fazê-lo (art. 236 §2º). O petista submete-se a todo este mecanismo de controle, ciente de que o Partido sabe o que faz.
Se sou vereador e o Partido me proíbe de propor um projeto de lei pró-vida, não tenho motivo para reclamar. O Partido deve ter suas razões. Se sou senador e cabe a mim a tarefa de emitir um relatório sobre um projeto de aborto, eu, por fidelidade ao PT, não posso manifestar-me contra a proposta. Devo agradecer ao Partido por ele, benignamente, permitir que eu passe o encargo de relator a um colega abortista. Se sou deputado federal e o Partido manda que eu me ausente de uma sessão deliberativa, onde meu voto, contrário ao aborto, atrapalhará a aprovação de um projeto, a resignação será minha melhor atitude.
Tudo isso e muito mais vale a pena. Pois todos os outros partidos são comprometidos com as oligarquias, com o neoliberalismo, com a classe dos opressores, e não dão importância aos pobres, aos excluídos, aos marginalizados, aos explorados, aos sem voz e sem vez. Pertencer ao PT é uma glória tão grande que justifica qualquer custo.
Se sou petista, pouco me importa que Lula e Fidel Castro tenham fundado em 1990 o Foro de São Paulo para fortalecer a ditadura cubana, após a queda da União Soviética.
Se sou petista, não quero saber por que durante anos nenhum parlamentar petista, desde a mais humilde Câmara Municipal até o Senado Federal, ousou propor um projeto de lei antiabortista. Nem me interessa questionar a punição de dois deputados que ousaram apresentar propostas legislativas pró-vida.
Se sou petista, pouco me importa que Dilma Rousseff defenda a legalização do aborto como “questão de saúde pública”[9]. Muito menos que Dilma e Lula tenham assinado em dezembro de 2009, o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, que defende a descriminalização do aborto, o reconhecimento da prostituição como uma profissão, a união civil de pessoas do mesmo sexo e a adoção de crianças por duplas homossexuais[10].
Aliás, o bom petista jamais chegaria até esta linha do artigo. Muito antes já teria parado a leitura por considerá-la perigosa à fé que ele tem no Partido.
Agora, uma pergunta final, com vistas às eleições de outubro: pode um cristão votar no PT? Só há um jeito: trocar sua Certidão de Batismo pela Certidão de Petismo. Duas religiões antagônicas não podem coexistir num mesmo fiel.

Um cristão não pode apoiar com seu voto um candidato comprometido com o aborto:
– ou pela pertença a um partido que obriga o candidato a esse compromisso (é o caso do PT)
– ou por opção pessoal.

Anápolis, 12 de julho de 2010.
Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Fiéis não votem em Dilma

Em carta, CNBB pede que fiéis não votem em Dilma

Publicada em 21/07/2010 às 20h31m
O Globo

RIO - A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou uma carta na última segunda-feira na qual pede que os fiéis não votem na candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff.
Leia a carta na íntegra:
"Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus
"Com esta frase Jesus definiu bem a autonomia e o respeito, que deve haver entre a política (César) e a religião (Deus). Por isto a Igreja não se posiciona nem faz campanha a favor de nenhum partido ou candidato, mas faz parte da sua missão zelar para que o que é de "Deus" não seja manipulado ou usurpado por "César" e vice-versa.
"Quando acontece essa usurpação ou manipulação é dever da Igreja intervir convidando a não votar em partido ou candidato que torne perigosa a liberdade religiosa e de consciência ou desrespeito à vida humana e aos valores da família, pois tudo isso é de Deus e não de César. Vice-versa extrapola da missão da Igreja querer dominar ou substituir-se ao estado, pois neste caso ela estaria usurpando o que é de César e não de Deus.
"Já na campanha eleitoral de 1996, denunciei um candidato que ofendeu pública e comprovadamente a Igreja, pois esta atitude foi uma usurpação por parte de César daquilo que é de Deus, ou seja o respeito à liberdade religiosa.
"Na atual conjuntura política o Partido dos Trabalhadores (PT) através de seu IIIº e IVº Congressos Nacionais (2007 e 2010 respectivamente), ratificando o 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3) através da punição dos deputados Luiz Bassuma e Henrique Afonso, por serem defensores da vida, se posicionou pública e abertamente a favor da legalização do aborto, contra os valores da família e contra a liberdade de consciência.
"Na condição de Bispo Diocesano, como responsável pela defesa da fé, da moral e dos princípios fundamentais da lei natural que - por serem naturais procedem do próprio Deus e por isso atingem a todos os homens -, denunciamos e condenamos como contrárias às leis de Deus todas as formas de atentado contra a vida, dom de Deus,como o suicídio, o homicídio assim como o aborto pelo qual, criminosa e covardemente, tira-se a vida de um ser humano, completamente incapaz de se defender. A liberação do aborto que vem sendo discutida e aprovada por alguns políticos não pode ser aceita por quem se diz cristão ou católico. Já afirmamos muitas vezes e agora repetimos: não temos partido político, mas não podemos deixar de condenar a legalização do aborto. (confira-se Ex. 20,13; MT 5,21).
"Isto posto, recomendamos a todos verdadeiros cristãos e verdadeiros católicos a que não dêem seu voto à Senhora Dilma Rousseff e demais candidatos que aprovam tais "liberações", independentemente do partido a que pertençam.
"Evangelizar é nossa responsabilidade, o que implica anunciar a verdade e denunciar o erro, procurando, dentro desses princípios, o melhor para o Brasil e nossos irmãos brasileiros e não é contrariando o Evangelho que podemos contar com as bênçãos de Deus e proteção de nossa Mãe e Padroeira, a Imaculada Conceição.
Dom Luiz Gonzaga Bergonzini"

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Apenas me deito, logo adormeço em paz, porque a segurança de meu repouso vem de vós só, Senhor. (Salmo 4, 9)

quarta-feira, 28 de julho de 2010

+DOM LUIZ BERGONZINI


Louvável insistência


23/07/2010 por Everth Queiroz Oliveira

O bispo da diocese de Guarulhos, Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, concedeu entrevista à Folha. “Eu não tenho medo”, afirmou o pastor quando questionado se pretendia levar ao conhecimento dos fiéis da diocese a recomendação de não votarem em Dilma Rousseff. Abaixo um pequeno trecho da entrevista.

Folha - Mesmo com a recomendação da CNBB pela neutralidade na campanha, o senhor decidiu explicitar sua posição contrária à candidata Dilma Rousseff. Por quê?
Dom Bergonzini – Em primeiro ligar, que recomendação é essa? A CNBB não tem autoridade nenhuma sobre os bispos. Eu segui a voz da minha consciência. Sou cristão de verdade e defendo o mandamento “não matarás”. Não tem esse negócio de “meio termo”.



Folha – A candidata afirma que não defende a descriminalização do aborto. Mesmo assim, o senhor cita o nome dela no artigo.
Dom Bergonzini – Ela segue o partido, ela é a candidata. Então eu vou matar a cobra na cabeça. Pessoalmente não tenho nada contra ela. Mas o direito à vida é o maior direito humano. O aborto é atitude covarde e criminosa. Eu não arredo o pé, não.

Quanto à recomendação de neutralidade exposta pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, é importante deixar bem claro – assim como o bispo de Guarulhos deixou bem claro no artigo que foi banido do site da CNBB – que a Igreja não se confunde de modo algum com uma comunidade política. Então, não se trata de um posicionamento político a atitude do bispo paulista. A recomendação de Dom Bergonzini está ligada a um ensinamento moral da Igreja. O aborto é um crime abominável, algo extremamente terrível aos olhos de Deus. Um católico que queira verdadeiramente cumprir a lei de Deus não pode colaborar, com seu voto, com a campanha de uma candidata que é claramente a favor da descriminalização desse homicídio. E é dever dos bispos orientar os fiéis nesse sentido. Neutralidade não pode se confundir com omissão.




E, enquanto de um lado temos a coragem e a valentia de um bispo em condenar a filiação de um cristão aos projetos do PT, de outro temos o apoio de comunidades protestantes à candidatura de Dilma Rousseff.

Posso votar no PT? (uma questão moral)

Posso votar no PT? (uma questão moral)

1. Existe algum partido da Igreja Católica?

A Igreja, justamente por ser católica, isto é, universal, não pode estar confinada a um partido político. Ela “não se confunde de modo algum com a comunidade política” e admite que os cidadãos tenham “opiniões legítimas, mas discordantes entre si, sobre a organização da realidade temporal”.

2. Então os fiéis católicos podem-se filiar a qualquer partido?

Não. Há partidos que abusam da pluralidade de opinião para defender atentados contra a lei moral, como o aborto e o casamento de pessoas do mesmo sexo. “Faz parte da missão da Igreja emitir juízo moral também sobre as realidades que dizem respeito à ordem política, quando o exijam os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas”.

3. O Partido dos Trabalhadores (PT) defende algum atentado contra a lei moral?

Sim. No 3º Congresso do PT, ocorrido entre agosto e setembro de 2007, foi aprovada a resolução “Por um Brasil de mulheres e homens livres e iguais”, que inclui a “defesa da autodeterminação das mulheres, da descriminalização do aborto e regulamentação do atendimento a todos os casos no serviço público”.

4. Todo político filiado ao PT é obrigado a acatar essa resolução?

Sim. Para ser candidato pelo PT é obrigatória a assinatura do Compromisso do Candidato Petista, que “indicará que o candidato está previamente de acordo com as normas e resoluções do Partido, em relação tanto à campanha como ao exercício do mandato” (Estatuto do PT, art. 128, §1º).

5. Que ocorre se o político contrariar uma resolução do Partido como essa, que apoia o aborto?

Em tal caso, ele “será passível de punição, que poderá ir da simples advertência até o desligamento do Partido com renúncia obrigatória ao mandato” (Estatuto do PT, art. 128, §2º). Em 17 de setembro de 2009, dois deputados foram punidos pelo Diretório Nacional. O motivo alegado é que eles “infringiram a ética-partidária ao ‘militarem’ contra resolução do 3º Congresso Nacional do PT a respeito da descriminalização do aborto”.

6. O PT agiu mal ao punir esses dois deputados?

Agiu mal, mas agiu coerentemente. Sendo um partido abortista, o PT é coerente ao não tolerar defensores da vida em seu meio. A mesma coerência devem ter os cristãos não votando no PT.

7. Mas eu conheço abortistas que pertencem a outros partidos, como o PSDB, o PMDB, o DEM...

Os políticos que pertencem a esses partidos podem ser abortistas por opção própria, mas não por obrigação partidária. Ao contrário, todo político filiado ao PT está comprometido com o aborto.

8. Talvez haja algum político que se tenha filiado ao PT sem prestar atenção ao compromisso pró-aborto que estava assinando...

Nesse caso, é dever do político pró-vida desfiliar-se do PT, após ter verificado o engano cometido.

9. Houve políticos que deixaram o PT e se filiaram ao Partido Verde (PV). Os cristãos podem votar neles?

Infelizmente não. Ao deixarem o PT e se filiarem ao PV, eles trocaram o seis pela meia dúzia. O PV é outro partido que exige de seus filiados a adesão à causa abortista. Seu estatuto diz: “São deveres dos filiados ao PV: obedecer ao Programa e ao Estatuto” (art. 12, a). E o Programa do PV, ao qual todo filiado deve obedecer, defende a “legalização da interrupção voluntária da gravidez”.

10. Que falta comete um cristão que vota em um candidato de um partido abortista, como o PT?

Se o cristão vota no PT consciente de tudo quanto foi dito acima, comete pecado grave, porque coopera conscientemente com um pecado grave. O Catecismo da Igreja Católica (n. 1868) ensina sobre a cooperação com o pecado de outra pessoa: “O pecado é um ato pessoal. Além disso, temos responsabilidade nos pecados cometidos por outros, quando neles cooperamos: participando neles direta e voluntariamente; mandando, aconselhando, louvando ou aprovando esses pecados; não os revelando ou não os impedindo, quando a isso somos obrigados; protegendo os que fazem o mal.” Ora, quem vota no PT, de fato aprova, ou seja, contribui com seu voto para que possa ser praticado o que constitui um pecado grave.


PT: Partido ou Religião?

Quando um cidadão encontra o Partido dos Trabalhadores, encontra um tesouro. Vale a pena vender tudo para comprar o campo onde o tesouro está enterrado. O PT não é o melhor dos partidos políticos. É o único partido verdadeiro. Os outros são simulacros de partido.

A alegria de ter encontrado a verdade, faz com que o cidadão, para filiar-se ao PT, renuncie a tudo. Uma vez filiado, ele não terá mais direito de escolher seus candidatos. Seu dever será “votar nos candidatos indicados” pelo Partido. (Estatuto do Partido dos Trabalhadores, aprovado em 05/10/2007, art. 14, inciso VI). Se for candidato a um mandato parlamentar, deverá reconhecer expressamente que o mandato não é seu, mas que “pertence ao partido” (art. 69, inciso I). A obediência ao Partido é sagrada. Está acima de tudo: de suas opiniões pessoais, de suas convicções, das reivindicações dos eleitores. Só em casos extremamente excepcionais, o parlamentar poderá ser dispensado de cumprir as ordens do alto, para seguir sua consciência ou o clamor dos que nele votaram (art. 67 § 2º).

Com alegria o filiado pagará anualmente uma contribuição proporcional ao seu rendimento (art. 170). Se ocupar um cargo executivo ou legislativo, a contribuição não será anual, mas mensal, obedecendo a uma tabela progressiva (art. 171 e 173). Mas a alegria de ser filho do verdadeiro Partido faz com que todas essas imposições pareçam leves.

Dentro do Partido, zela-se não só pela unidade (“que todos sejam um”), mas pela uniformidade. Frações, públicas ou internas ao Partido, são expressamente proibidas (art. 233 §4º). No entanto, os filiados podem organizar-se em “tendências” (art. 233). Estas, porém, estão submissas às decisões partidárias e ao encaminhamento prático do Partido (art. 238). Nenhum filiado poderia, por exemplo, organizar uma tendência para combater o “casamento” de homossexuais ou a legalização do aborto, que são bandeiras do Partido. As tendências não podem ter sedes próprias (art. 235 “caput”), não podem reunir-se com não-filiados (art. 235 §3º) e não podem difundir suas posições fora do Partido (art. 236 §1º). Mesmo que uma tendência deseje publicar documentos seus contendo posições oficiais do Partido, está proibida de fazê-lo (art. 236 §2º). O petista submete-se a todo este mecanismo de controle, ciente de que o Partido sabe o que faz.

Se sou vereador e o Partido me proíbe de propor um projeto de lei pró-vida, não tenho motivo para reclamar. O Partido deve ter suas razões. Se sou senador e cabe a mim a tarefa de emitir um relatório sobre um projeto de aborto, eu, por fidelidade ao PT, não posso manifestar-me contra a proposta. Devo agradecer ao Partido por ele, benignamente, permitir que eu passe o encargo de relator a um colega abortista. Se sou deputado federal e o Partido manda que eu me ausente de uma sessão deliberativa, onde meu voto, contrário ao aborto, atrapalhará a aprovação de um projeto, a resignação será minha melhor atitude.

Tudo isso e muito mais vale a pena. Pois todos os outros partidos são comprometidos com as oligarquias, com o neoliberalismo, com a classe dos opressores, e não dão importância aos pobres, aos excluídos, aos marginalizados, aos explorados, aos sem voz e sem vez. Pertencer ao PT é uma glória tão grande que justifica qualquer custo.

Se sou petista, pouco me importa que Lula e Fidel Castro tenham fundado em 1990 o Foro de São Paulo para fortalecer a ditadura cubana, após a queda da União Soviética.

Se sou petista, não quero saber por que durante anos nenhum parlamentar petista, desde a mais humilde Câmara Municipal até o Senado Federal, ousou propor um projeto de lei antiabortista. Nem me interessa questionar a punição de dois deputados que ousaram apresentar propostas legislativas pró-vida.

Se sou petista, pouco me importa que Dilma Rousseff defenda a legalização do aborto como “questão de saúde pública”. Muito menos que Dilma e Lula tenham assinado em dezembro de 2009, o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, que defende a descriminalização do aborto, o reconhecimento da prostituição como uma profissão, a união civil de pessoas do mesmo sexo e a adoção de crianças por duplas homossexuais.

Aliás, o bom petista jamais chegaria até esta linha do artigo. Muito antes já teria parado a leitura por considerá-la perigosa à fé que ele tem no Partido.

Agora, uma pergunta final, com vistas às eleições de outubro: pode um cristão votar no PT? Só há um jeito: trocar sua Certidão de Batismo pela Certidão de Petismo. Duas religiões antagônicas não podem coexistir num mesmo fiel.

Um cristão não pode apoiar com seu voto um candidato comprometido com o aborto:
– ou pela pertença a um partido que obriga o candidato a esse compromisso (é o caso do PT)
– ou por opção pessoal.

Anápolis, 12 de julho de 2010.
Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz.
Presidente do Pró-Vida de Anápolis
Telefax: 55+62+3321-0900
Caixa Postal 456
75024-970 Anápolis GO
http://www.providaanapolis.org.br
"Coração Imaculado de Maria, livrai-nos da maldição do aborto"

quinta-feira, 22 de julho de 2010

BEATAE MARÍAE MAGDALÉNAE.ORA PRO NOBIS


Santa Maria Madalena.
Aqui vemo-nos diante do mistério pascal de cristo revelado a mesma Por ser a antecessora a ver o cristo ressuscitado.
Antecipa sua caminhada a vai ao encontro do cristo entes se Poe aos pés da cruz e também se torna uma adoradora do verbo eterno e encarnado nosso Senhor Jesus cristo.
Mediante o qual Maria madalena professa sua fé e vê diante seus olhos a misericórdia de nosso rei e salvador.
mas quem é maria madalena?
Os evangelhos nos fornecem poucos dados. Lc. 8,2 diz-nos que, entre as mulheres que seguiam Jesus e o assistiam com seus bens, estava Maria Madalena, ou seja, uma mulher chamada Maria, que era originária de Migdal Nunayah, Tariquea em grego, uma pequena povoação junto ao lago da Galiléia, a 5,5 km ao norte de Tiberíades. Dela Jesus havia expulsado sete demônios (Lc. 8,2; Mc. 16,9), o que equivale dizer “todos os demônios”. A expressão pode ser entendida tanto como uma possessão diabólica quanto como uma doença do corpo ou do espírito. Os Evangelhos sinópticos a mencionam como a primeira de um grupo de mulheres que contemplou, de longe, a crucificação de Jesus (Mc. 15, 40-41 e par.) e que permaneceu sentada em frente ao sepulcro (Mt 27,61), enquanto sepultavam Jesus (Mc. 15,47). Assinalam que, na madrugada do dia depois do sábado, Maria Madalena e outras mulheres voltaram ao sepulcro para ungir o corpo com os perfumes que haviam comprado (Mc 16, 1-7 e par); é, então, que um anjo lhes comunica que Jesus havia ressuscitado e as encarrega de levarem a notícia aos discípulos (cf. Mc. 16, 1-7 e par). São João apresenta os mesmos fatos com pequenas variações. Maria Madalena está junto à Virgem Maria ao pé da cruz (João 19,25).

Depois do sábado, quando ainda era noite, ela se aproxima do sepulcro, vê a pedra afastada e avisa Pedro, pensando que alguém tinha roubado o corpo de Jesus (João 20,1-2). Voltando ao sepulcro, enquanto chora, encontra-se com Jesus ressuscitado que a encarrega de anunciar aos discípulos a Sua volta ao Pai (João 20,11-18). Esta é a sua glória. Por isso, a Tradição, na Igreja Oriental, a chamou de isapóstolos “igual a um apóstolo” e, na Igreja Ocidental, apostola apostolorum “apóstolo dos apóstolos”. Uma tradição do Oriente diz que ela foi enterrada em Éfeso e que suas relíquias foram levadas para Constantinopla no século IX.

Maria Madalena foi identificada freqüentemente com outras mulheres que aparecem nos Evangelhos. Na Igreja Latina, a partir dos séculos VI e VII, houve a tendência de identificar Maria Madalena com a mulher pecadora que na casa de Simão, o fariseu, ungiu os pés de Jesus com suas lágrimas (Lc. 7,36-50). Por outro lado, alguns Padres a escritores eclesiásticos, harmonizando os evangelhos, já haviam identificado esta mulher pecadora com Maria, irmã de Lázaro, que em Betânia unge com um perfume a cabeça de Jesus (João 12,1-11; Mateus e Marcos, no trecho correspondente, não mencionam o nome de Maria, apenas dizendo tratar-se de uma mulher e que a unção ocorreu na casa de Simão, o leproso (Mt 26,6-13 e par). Em conseqüência disso, no Ocidente, devido principalmente a São Gregório, generalizou-se a idéia de que as três mulheres eram uma só pessoa.

Mas os dados evangélicos sugerem apenas que se deve identificar Maria Madalena com a Maria que unge Jesus em Betânia, pois presumivelmente é a irmã de Lázaro (João 12,2-3). Os evangelhos também não permitem deduzir que seja a mesma que a pecadora que, segundo Lc. 7,36-49, ungiu Jesus, embora a identificação seja compreensível pelo fato de São Lucas, imediatamente depois do relato em que Jesus perdoa esta mulher, mencionar que algumas mulheres o ajudavam, entre elas Maria Madalena, de quem ele havia expulsado sete demônios (Lc. 8,2). Além disso, Jesus elogia o amor da mulher pecadora: muitos pecados lhe são perdoados porque muito amou (Lc. 7,47) e também se percebe um grande amor no encontro entre Maria e Jesus depois da Ressurreição (João 20,14-18). Em todo caso, mesmo em se tratando da mesma mulher, seu passado de pecados não é um desdouro. Pedro foi infiel a Jesus e Paulo um perseguidor dos cristãos. A grandeza deles não está na sua imunidade ao pecado, mas no seu amor.

Por seu papel de relevo no Evangelho, Maria Madalena foi uma protagonista que recebeu especial atenção em alguns grupos marginais na Igreja primitiva. Estes são constituídos fundamentalmente por seitas gnósticas, cujos escritos relatam revelações secretas de Jesus depois da Ressurreição e recorrem à figura de Maria para transmitir suas idéias. São relatos que não têm fundamento histórico. Padres da Igreja, autores eclesiásticos e outras obras destacam o papel de Maria como discípula do Senhor e anunciadora do Evangelho. A partir do século X surgem narrações fictícias que elogiam sua pessoa e que se difundem principalmente na França. É aí que nasce a lenda, que não tem nenhum fundamento histórico, de que Madalena, Lázaro e outros mais, foram de Jerusalém a Marselha, quando se iniciou a perseguição contra os cristãos, e evangelizaram a Provença. Segundo esta lenda, Maria morreu em Aix-en-Provence ou Saint Maximin e suas relíquias foram levadas a Vezelay.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O Escapulário do Carmo



A Virgem entrega o Escapulário a São Simão Stock - Balzico, sécu. XIX, igreja de Santa Maria da Vitória, Roma

No dia 16 de julho, há 750 anos, o mais extraordinário penhor de salvação jamais dado ao homem — o Escapulário do Carmo — era entregue a São Simão Stock. Por isso, os carmelitanos declararam 2001 “Ano Mariano” para toda a Ordem.

Certo dia, que já vai longe, andando pelas ruas de Roma, encontraram-se três insignes homens de Deus. Um era Frei Domingos de Gusmão, que recrutava membros para a Ordem que fundara, a dos Pregadores, mais tarde conhecida como dos “dominicanos”. Outro era o Irmão Francisco de Assis, o Poverello, que havia pouco reunira alguns homens para servir ao que chamava a Dama Pobreza. O terceiro, Frei Ângelo, tinha vindo de longe, do Monte Carmelo, na Palestina, chamado a Roma como grande pregador que era.

Os três, iluminados pelo Divino Espírito Santo, reconheceram-se mutuamente, e no decurso da conversa fizeram muitas profecias. Santo Ângelo, por exemplo, predisse os estigmas que seriam concedidos por Deus a São Francisco. E São Domingos profetizou: “Um dia, Irmão Ângelo, a Santíssima Virgem dará à tua Ordem do Carmo uma devoção que será conhecida pelo nome de Escapulário Castanho, e dará à minha Ordem dos Pregadores uma devoção que se chamará Rosário. E um dia Ela salvará o mundo por meio do Rosário e do Escapulário”.

No lugar desse encontro construiu-se uma capela, que existe até hoje em Roma1.

Em sua edição de maio último, Catolicismo já tratou extensamente da importância e dos benefícios do santo Rosário, tão insistentemente recomendado por Nossa Senhora em Fátima para a salvação do nosso mundo afundado no pecado. O tema do Escapulário foi também largamente exposto em nossa edição de fevereiro de 1999 — Escapulário do Carmo: tábua de salvação oferecida por Maria Santíssima. Porém, em virtude da grande data que agora comemoramos, e da suma importância do Escapulário, relembraremos alguns pontos básicos desse precioso e maternal dom da Virgem Santíssima, concedido à humanidade.

Mãe e esplendor do Carmelo

Foi no celebrado Monte Carmelo, no litoral palestino, que o Profeta de fogo, Santo Elias, viu a nuvenzinha que, num período de grande seca, prenunciava a chuva redentora que cairia sobre a terra ressequida. Por uma intuição sobrenatural, soube que essa simples nuvem, com forma de uma pegada humana, simbolizava aquela mulher bendita, predita depois pelo Profeta Isaías (“Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho”), que seria a Mãe do Redentor. Do seu seio virginal sairia Aquele que, lavando com seu sangue a terra ressequida pelo pecado, abriria aos homens a vida da graça.

Dos seguidores de Elias e seus continuadores, de acordo com a tradição, nasceu a Ordem do Carmo, da qual Maria Santíssima é a Mãe e esplendor, segundo as palavras também de Isaías “A glória do Líbano lhe será dada, o esplendor do Carmelo e de Saron” (Is 35, 2).

Da Palestina, os eremitas do Monte Carmelo passaram para a Europa, radicando-se em vários países, entre eles a Inglaterra, onde vivia São Simão Stock.

São Simão Stock: nobre e santo

Simão nasceu no ano de 1165 no castelo de Harford, no condado de Kent, Inglaterra, em atenção às preces de seus piedosos pais, que uniam a mais alta nobreza à virtude. Alguns escritores julgam mesmo que tinham parentesco com a família real.

Sua mãe consagrou-o à Santíssima Virgem desde antes de nascer. Em reconhecimento a Ela pelo feliz parto, e para pedir sua especial proteção para o filhinho, a jovem mãe, antes de o amamentar, oferecia-o à Virgem, rezando de joelhos uma Ave-Maria. Bela atitude de uma senhora altamente nobre!

O menino aprendeu a ler com pouquíssima idade. A exemplo de seus pais, começou a rezar o Pequeno Ofício da Santíssima Virgem, e logo também o Saltério. Esse verdadeiro pequeno gênio, aos sete anos de idade iniciou o estudo das Belas Artes no Colégio de Oxford, com tanto sucesso que surpreendeu os professores. Foi também nessa época admitido à Mesa Eucarística, e consagrou sua virgindade à Santíssima Virgem.

Perseguido pela inveja do irmão mais velho, e atendendo a uma voz interior que lhe inspirava o desejo de abandonar o mundo, deixou o lar paterno aos 12 anos, encontrando refúgio numa floresta onde viveu inteiramente isolado durante 20 anos, em oração e penitência.

A Ordem Carmelitana

Nossa Senhora revelou-lhe então seu desejo de que ele se juntasse a certos monges que viriam do Monte Carmelo, na Palestina, à Inglaterra, “sobretudo porque aqueles religiosos estavam consagrados de um modo especial à Mãe de Deus”. Simão saiu de sua solidão e, obedecendo também a uma ordem do Céu, estudou teologia, recebendo as sagradas ordens. Dedicou-se à pregação, até que finalmente chegaram dois frades carmelitas no ano de 1213. Ele pôde então receber o hábito da Ordem, em Aylesford.

Em 1215, tendo chegado aos ouvidos de São Brocardo, Geral latino do Carmo, a fama das virtudes de Simão, quis tê-lo como coadjutor na direção da Ordem; em 1226, nomeou-o Vigário-Geral de todas as províncias européias.

São Simão teve que enfrentar uma verdadeira tormenta contra os carmelitas na Europa, suscitada pelo demônio através de homens ditos zelosos pelas leis da Igreja, os quais queriam a todo custo suprimir a Ordem sob vários pretextos. Mas o Sumo Pontífice, mediante uma bula, declarou legítima e conforme aos decretos de Latrão a existência legal da Ordem dos Carmelitas, e a autorizou a continuar suas fundações na Europa.

São Simão participou do Capítulo Geral da Ordem na Terra Santa, em 1237. Em um novo Capítulo, em 1245, foi eleito 6° Prior-Geral dos Carmelitas.

A Grande Promessa: não irás para o fogo do inferno

Se a bula papal aplacara momentaneamente o furor dos inimigos do Carmelo, não o fizera cessar de todo. Depois de um período de calmaria, as perseguições recomeçaram com mais intensidade.

Carente de auxílio humano, São Simão recorria à Virgem Santíssima com toda a amargura de seu coração, pedindo-Lhe que fosse propícia à sua Ordem, tão provada, e que desse um sinal de sua aliança com ela.

Na manhã do dia 16 de julho de 1251, suplicava com maior empenho à Mãe do Carmelo sua proteção, recitando a bela oração por ele composta, Flos Carmeli2. Segundo ele próprio relatou ao Pe. Pedro Swayngton, seu secretário e confessor, de repente “a Virgem me apareceu em grande cortejo, e, tendo na mão o hábito da Ordem, disse-me:

“‘Recebe, diletíssimo filho, este Escapulário de tua Ordem como sinal distintivo e a marca do privilégio que eu obtive para ti e para todos os filhos do Carmelo; é um sinal de salvação, uma salvaguarda nos perigos, aliança de paz e de uma proteção sempiterna. Quem morrer revestido com ele será preservado do fogo eterno’” 3.

Essa graça especialíssima foi imediatamente difundida nos lugares onde os carmelitas estavam estabelecidos, e autenticada por muitos milagres que, ocorrendo por toda parte, fizeram calar os adversários dos Irmãos da Santíssima Virgem do Monte Carmelo.

São Simão atingiu extrema velhice e altíssima santidade, operando inúmeros milagres, tendo também obtido o dom das línguas; entregou sua alma a Deus em 16 de maio de 1265.

Privilégio Sabatino: livre do Purgatório no primeiro sábado após a morte

Além dessa graça específica da salvação eterna, ligada ao Escapulário, Nossa Senhora concedeu outra, que ficou conhecida como privilégio sabatino. No século seguinte, apareceu Ela ao Papa João XXII, a 3 de março de 1322, comunicando àqueles que usarem seu Escapulário: “Eu, sua Mãe, baixarei graciosamente ao purgatório no sábado seguinte à sua morte, e os lavarei daquelas penas e os levarei ao monte santo da vida eterna” 4.

Quais são, então, as promessas específicas de Nossa Senhora?

1º. Quem morrer com o Escapulário não padecerá o fogo do inferno.

Que desejava Nossa Senhora dizer com estas palavras?— Em primeiro lugar, ao fazer a sua promessa, Maria não quer dizer que uma pessoa que morra em pecado mortal se salvará. A morte em pecado mortal e a condenação são uma e a mesma coisa. A promessa de Maria traduz-se, sem dúvida, por estas outras palavras: “Quem morrer revestido do Escapulário, não morrerá em pecado mortal”. Para tornar isto claro, a Igreja insere, muitas vezes, a palavra “piamente” na promessa: “aquele que morrer piamente não padecerá do fogo do inferno” 5.

2º. Nossa Senhora livrará do Purgatório quem portar seu Escapulário, no primeiro sábado após sua morte.

Embora freqüentemente se interprete este privilégio ao pé da letra, isto é, que a pessoa será livre do Purgatório no primeiro sábado após sua morte, “tudo que a Igreja, para explicar estas palavras, tem dito oficialmente em várias ocasiões, é que aqueles que cumprem as condições do Privilégio Sabatino serão, por intercessão de Nossa Senhora, libertos do Purgatório pouco tempo depois da morte, e especialmente no sábado” 6.

De qualquer modo, se formos fiéis em observar as palavras da Virgem Santíssima, Ela será muito mais fiel em observar as suas, como nos mostra o seguinte exemplo:

Durante umas missões, tocado pela graça divina, certo jovem deixou a má vida e recebeu o Escapulário. Tempos depois recaiu nos costumes desregrados, e de mau tornou-se pior. Mas, apesar disso, conservou o santo Escapulário.

A Virgem Santíssima, sempre Mãe, atingiu-o com grave enfermidade. Durante ela, o jovem viu-se em sonhos diante do justíssimo tribunal de Deus, que devido às suas perfídias e má vida, o condenou à eterna danação.

Em vão o infeliz alegou ao Sumo Juiz que portava o Escapulário de sua Mãe Santíssima.

— E onde estão os costumes que correspondem a esse Escapulário? — perguntou-lhe Este.

Sem saber o que responder, o desditoso voltou-se então para Nossa Senhora.

— Eu não posso desfazer o que meu Filho já fez — respondeu-lhe Ela.

— Mas, Senhora! — exclamou o jovem— Serei outro.

— Tu me prometes?

— Sim.

— Pois então vive.

Nesse momento o doente despertou, apavorado com o que vira e ouvira, fazendo votos de portar doravante mais seriamente o Escapulário de Maria. Com efeito, sarou e entrou para a Ordem dos Premonstratenses. Depois de vida edificante, entregou sua alma a Deus. Assim narram as crônicas dessa Ordem7.

O Escapulário e Fátima

Tem o Escapulário alguma relação com Fátima?

Sim. Após a última aparição de Nossa Senhora na Cova da Iria, surgiram aos olhos dos três videntes diversas cenas. Na primeira, ao lado de São José e tendo o Menino Jesus ao colo, Ela apareceu como Nossa Senhora do Rosário. Em seguida, junto a Nosso Senhor acabrunhado de dores a caminho do Calvário, surgiu como Nossa Senhora das Dores. Finalmente, gloriosa, coroada como Rainha do Céu e da Terra, a Santíssima Virgem apareceu como Nossa Senhora do Carmo, tendo o Escapulário à mão.

— Que pensa da razão por que Nossa Senhora apareceu com o Escapulário nesta última visão? — perguntaram a Lúcia em 1950.

— É que Nossa Senhora quer que todos usem o Escapulário — respondeu ela.

“E é por este motivo que o Rosário e o Escapulário, os dois sacramentais marianos mais privilegiados, mais universais, mais antigos e mais valiosos, adquirem hoje uma importância maior do que em nenhuma passada época da História” 8.

sábado, 3 de julho de 2010

ENTREVISTA DE DOM PESTANA

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Entrevista com dom Manuel Pestana Filho
O TEÓLOGO DA TRADIÇÃO - O ÚLTIMO DOS MOICANOS?

Uma relíquia para você, como presente antecipado de Natal. Acredite: é muito boa!

Há mais de 12 anos o então bispo diocesano de Anápolis (hoje hemérito) dom Manoel Pestana Filho, fez-me um extraordinário bem. Ao ler o Jornal Opção, semanário muito bom de Goiânia, deparei-me com algo que jamais imaginaria àquela época tão bicuda para os assuntos da Fé: uma entrevista, longa (para duas edições do jornal), com o homem da Igreja do Regional Centro-Oeste (e talvez do Brasil) considerado o mais radical e tradicionalista dentre todos!

Evidente que logo imaginei que fariam dele gato e sapato, como já havia visto em outras situações semelhantes, com outros personagens também semelhantes, via TV, revistas e tal... Qual não foi minha surpresa - feliz, digo logo! - diante do virtuosismo com que aquele ancião de baixa estatura e altíssimo intelecto conduziu (diria, mesmo, manobrou) a banca de entrevistadores, a ponto de me ver sorrindo sozinho, de satisfação, para espanto dos que estavam ao meu lado no ônibus que tomava para ir do serviço para casa!

Pois bem. Hoje quero partilhar com vocês esse presente que então muito contribuiu para o fortalecimento de minha fé. É longa mas, ao concluir sua leitura, talvez tenha a mesma sensação que eu, que fiquei com gostinho de quero mais. Bom proveito!

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A entrevista do bispo de Anápolis, dom Manuel Pestana, foi publicada em junho de 1996. É curioso notar como a entrevista do bispo reagiu bem ao vigor do tempo. Ela continua “viva”, brilhante. Há trechos antológicos, como a passagem em que narra sua crise de fé e a análise de algumas obras, como as de Marx e Renan. Depois de lida a entrevista, o leitor poderá até continuar dizendo que dom Pestana é conservador e, mesmo, moralista. Mas não poderá deixar de admirar sua lucidez, sua inteligência. E, igualmente instigante, Pestana é dotado de um grande senso de humor. Sabe ser irônico sem parecer que está sendo irônico, como Bernard Shaw, que o bispo certamente não admira. A entrevista de dom Pestana é uma ambrosia intelectual. Para os mortais, é claro.

entrevista/Dom Manuel Pestana

O teólogo da tradição


“As crises morais e existenciais num seminário são em muito menor número que numa situação de contato direto com o mundo”


Houve um tempo em que uma diocese era praticamente um Estado dentro de outro. Cardeais eram quase reis, e o papa, um imperador. Hoje, quando a Igreja Católica separou-se do Estado e parte dela se apegou aos que andam à margem dele, convém explicar que diocese é apenas a região liderada por um bispo. Anápolis e mais 17 municípios formam uma diocese. E lá, quem conduz as ovelhas para o redil católico é dom Manuel Pestana Filho, 67 anos e quase 44 de sacerdócio.

Seus diminutos 158 centímetros de altura encolhem-se mais ainda na pesada batina negra, que esvoaça sobre a calça e os sapatos também negros. Um leve risco branco denuncia a camisa de mangas compridas que ele usa sob o hábito de meio século. De seu vulto negro se destaca a larga cruz de madeira, que pende um pouco abaixo do peito. Mas, se ao longe, a rara batina chama a atenção para o padre que vai nela, de perto, são os olhos castanhos-escuros que traem o homem audacioso que vai dentro do padre.

Corroborando o que dizem seus adversários, dom Manuel Pestana é mesmo um conservador. Mas seus princípios radicalmente antigos não são conservados com o bolor do costume ou a rabugem do preconceito — são remoçados por um diálogo erudito com a tradição. Dono de vasta biblioteca, dom Manuel Pestana é capaz de converter o ensinamento de um dogma num exercício de dialética. E quando ataca idéias alheias, primeiro entra nos argumentos delas com uma lógica de escolástico; depois, as implode com uma ironia machadiana.

Bem-humorado, diz que se acha velho. “Tenho quatro UTIs e cinco unções dos enfermos. Como vocês vêem, já cansei de preparar o passaporte, mas não deu certo”, brinca. “Enquanto Deus me suporta, e os homens também, vou ficando”, gargalha, acentuando o vermelho do rosto. Perguntado se a batina não faz muito calor, não titubeia: “Ora, o inferno é mais quente”. E quando fala do inferno, não pode deixar de citar Dante — A Divina Comédia, no original italiano, é sua leitura de cabeceira.

Aliás, uma das leituras, já que o bispo é um leitor voraz. Além do italiano, domina o latim, o espanhol e o francês, lê fluentemente em inglês, conhece grego e ainda arranha o alemão escrito. Detalhista, mapeia sua diocese: “Antes da criação da Diocese de Luziânia, que em 1989, ficou com dois municípios nossos, éramos 23 mil 810 quilômetros quadrados; hoje, somos 14 mil 227 quilômetros quadrados, 17 municípios e uma população de aproximadamente 447 mil 769 habitantes”.

Dom Manuel Pestana veio de Anápolis especialmente para esta entrevista ao Jornal Opção. Chegou antes das 15 horas, da quarta-feira, 5, e saiu muito depois das 18, assim mesmo porque tinha compromisso litúrgico com seus diocesanos — era véspera de Corpus Christi. Apesar das três fitas cassetes cheias, não houve tempo de fazer todas as perguntas. Algumas foram respondidas por fax. O resultado é o perfil de um lúcido intelectual, um completo diagnóstico da Igreja no Brasil e uma catilinária moral contra a televisão brasileira. O jurista Licínio Leal Barbosa, articulista do Jornal Opção, participou como entrevistador.

José Maria e Silva — Quando o senhor foi ordenado sacerdote?

Na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, no dia 5 de outubro de 1952. Dois dias depois, no dia 7 de outubro, celebrei minha primeira missa na mesma basílica. Foi um dos grandes momentos da minha vida. Até hoje, quando vejo as fotos da minha ordenação, sinto uma comoção muito grande. Tinha 24 anos, mas sabia muito bem o que estava fazendo. Fiz um retiro de silêncio durante um mês. Nas duas primeiras semanas, não falei absolutamente nada. Antes das duas últimas semanas, tivemos um intervalo de meio dia, mais não tivemos coragem de falar. Então continuamos o retiro por mais duas semanas. Depois de ordenado, continuei em Roma por dez meses.

Euler Belém — Qual a origem do sobrenome Pestana?

Descobri, casualmente, quando estive na Itália, que o sobrenome Pestana tem origem na Ilha da Madeira, no Norte da África. Por volta de 1400, chegou lá, exilado, um português chamado João Veloso. Talvez por ter cílios muito grandes, foi apelidado de Pestana. Mais tarde, uma senhora Pestana foi ama de leite de Dom João V. E há também o famoso Álvaro de Brito Pestana, um dos autores do cancioneiro geral português. Em Anápolis, para me distinguir de outro bispo Manuel, da Igreja Brasileira, passaram a me chamar pelo sobrenome.

José Maria e Silva — Os pais do senhor eram católicos?

Minha família era católica não só por tradição, mas pela prática. Meu pai se chamava Manuel Pestana, e minha mãe, Maria Isaura Ornelas. Éramos dez irmãos. Três morreram quando crianças, e minha última irmã, a caçula, nasceu quando eu estava em Roma, terminando o curso para ser padre. Minha família é muito religiosa. Tive dois irmãos que chegaram a entrar no seminário. Fiz minha primeira comunhão aos seis anos e meio e participei da Cruzada Eucarística. Entrei para o Seminário Metropolitano Menor de Pirapora com doze anos e oito meses. Ele era dirigido por uma ordem de alemães, belgas e holandeses. É a ordem dos premonstratenses, fundada por São Norberto (1080-1134). Tínhamos laboratório de química, física e biologia. Ficávamos em regime de internato. Só saíamos duas vezes por ano. Lá se estudava muito. Para mim, foi uma bênção.

José Maria e Silva — Aos seis anos, o senhor teve que se confessar para fazer a primeira comunhão. Com essa idade, o senhor tinha pecado para contar ao padre?

Ah! eu tinha sim: pede bença p’a mamãe, pede bença p’o vovô, pede bença p’a vovó, pus a língua p’a minha tia — hummm! (risos) Aí a gente pergunta para a criança: “Isso é bonito?” Ela diz: “Não, não é bonito, não”. Então, se começa a formar a consciência dela.

José Maria e Silva — O senhor entrou muito novo no seminário. Como foi a questão do sexo na adolescência?

Tive todas as tentações normais da idade, mas, em contrapartida, tive uma orientação espiritual muito segura. As crises morais e existenciais num seminário ou numa escola militar são em muito menor número que numa situação de contato direto com o mundo. A razão é simples: o grande problema da juventude é não saber o que fazer da vida. Daí que o jovem vai atrás de qualquer saída que se lhe ofereça. Por isso é muito importante, na pastoral da juventude, não ter medo de oferecer a ele um cristianismo anêmico, ele vai buscar heroísmo nas drogas, na marginalidade e até numa guerrilha. Quando escolhi ser padre, sabia que teria de viver castamente. E isso não é impossível.

José Maria e Silva — Com essa índole para o rigor, o senhor nunca quis entrar na Companhia de Jesus?

Não. Simplesmente queria ser padre. Eu fazia o terceiro ano, tinha nove anos, quando minha professora, na sala de aula, disse: “Eu vi o Pestana rezando na Igreja de São José. Esse menino vai ser padre”. Eu dei um berro, e todo mundo caiu na risada. Era uma professora muito boa, dedicada, extraordinária. No fim do ano, houve uma missão na minha paróquia e apareceu lá um padre redentorista, que depois morreu como missionário dos leprosos no Rio Purus. Era um homem muito vivo, gostava das crianças. Chegou em mim, brincando: “Manequinho, você quer ser padre? Quer ir para o seminário comigo?” Eu disse: “Quero”. Mas nem sabia o que era seminário. Contei para meus pais, eles falaram: “Isso é bobagem. Você tem que estudar, ajudar a gente”. Mais tarde, quando estava no segundo ano de ginásio, fui me confessar, e o padre insistiu: “Manequinho, desistiu de ser padre?” Eu disse: “Fala com a mamãe”. Ele foi falar com minha mãe. Meu pai disse: “Se for para ser bom padre, tudo bem. Mas se não for, nem vai sair de casa”. Acabei sendo padre. Até que um dia, quando era diretor da Faculdade de Filosofia, em São Paulo, recebo um telefonema. Estava sendo chamado para celebrar missa de sétimo dia. Fui. Quando abri o livro na página das intenções, havia uma cruz e estava escrito: “Missa de sétimo dia. Gerci Pinheiro Machado”. Era minha professora do terceiro ano. Fiquei tão comovido que tive dificuldade de sair da sacristia para celebrar a missa. Nunca mais eu a tinha visto. Ela tinha ido para São Paulo. E fora ela quem primeiro disse que eu iria ser padre.

Euler Belém — O senhor disse que há muita gente que não respeita padre. O senhor era bonito?

Quando celebrei minha primeira missa, ao me voltar para o público e dizer, “Dominuns ovisco”, “Deus esteja convosco”, apesar de muito recolhido, percebi risadas no fundo da capela, que não era muito grande. Depois da missa me contaram que, quando me voltei de frente para o público, uma velha lá atrás disse: “Oh! que belezinha!” (Risos).

José Maria e Silva — O senhor sempre usou batina?

Sempre. Só deixei de usar quando estive no Monte Sinai, em Israel. Era um tempo de guerra e me recomendaram que não usasse nenhum símbolo religioso para não correr risco de vida. Mesmo assim, celebrei missa, nas costas da montanha, sobre uma pedra.

Euler Belém — Faz muito calor essa batina?

O inferno é mais quente (risos). No deserto, vi beduínos andando de túnicas de lã, tecidas a mão. Aquilo ajuda a conservar a temperatura do corpo. A batina também ajuda. Claro que, como somos muito poucos usando hábito, todos aqueles que querem xingar o padre só acham a gente. Mas o hábito é interessante. Se eu ficar numa rodoviária muito tempo, logo aparecem pessoas para pedir conselho, se confessar. E aparecem, também, muitos bêbados, ora para se lamuriar, ora para pedir dinheiro.

Euler Belém — Como o senhor acha que a população de Anápolis vê o senhor?

Tive dificuldades no início. Quiseram até me tirar. Falavam que eu era conservador, radical, estreito, quadrado. Diziam que eu não tinha diálogo. Felizmente, visitei todas as comunidades assim que cheguei, e isso criou uma situação favorável.

Euler Belém — A visão que eu tinha do senhor era a visão de um bispo atrasado. Hoje, estou vendo um religioso conservador, mas inteligente.

Nós precisamos ser furiosamente radicais nos princípios, e muito humanos na aplicação deles.

Licínio Leal Barbosa — Ainda existe o seminário em que o senhor se formou?

Não. Desgraçadamente, não. Existiu até o fim da década de 60. Aliás, o fim dos seminários tem sido uma desgraça para a Igreja. Os seminários acabaram ou foram muito desestruturados. Ainda existem seminários muito bons, mas não são os mesmos. O material já não é o mesmo, culturalmente falando. No meu tempo de seminário, no terceiro ano primário, nós tínhamos um caderno de linguagem só para escrever carta. Era uma carta por semana. No exame de admissão, no ginásio, com dez anos, fui obrigado a ler e analisar o apólogo da agulha e da linha de Machado de Assis. Infelizmente, hoje, descemos muito, não só no Brasil, mas por todo lado. Na escola tínhamos uma verdadeira academia, para a qual os alunos eram eleitos segundo seus méritos.

José Maria e Silva — Do ponto de vista da moral, a formação de um seminarista também piorou?

Há seminários fechados, mesmo assim demasiadamente abertos. Desde 1965, houve uma evolução — ou involução. Com o argumento de que não se podia formar padres psicologicamente complicados, frustrados, se liberou, abriram-se as portas, e acabamos perdendo muitas grandes vocações.



“A TV brasileira é podre”


Euler Belém — A Globo tem uma imagem de emissora católica. Mas é uma das que mais apresentam padres em situações difíceis em suas novelas. Como o senhor analisa isso?

Não vejo nada de católico na Globo. Pelo contrário, devemos a ela grande parte da demolição dos valores cristãos no Brasil. Hoje, não só jovens, mas até pessoas adultas acham que devem imitar o comportamento e as expressões que são veiculadas nas telenovelas. E não é só a Globo, é a Bandeirantes, o SBT... Esses diretores não sabem o mal que estão fazendo. Na Itália, em 94, a Rai, a televisão italiana, passou o ano inteiro trabalhando sobre a Divina Comédia, de Dante (Dante Alighieri, 1265-1325, poeta italiano). E o grande sucesso que a Divina Comédia fez junto ao público foi exatamente devido às condenações que Dante reserva aos corruptos no inferno. Os jovens se entusiasmaram com a descrição tão perfeita da corrupção. Quer dizer, lá a televisão fez um trabalho educativo, de recuperação da popularidade de um grande poeta.

Euler Belém — Os produtores de TV no Brasil alegam que a oferta de sexo é sinônimo de liberdade, de país desenvolvido. Mas, nos países desenvolvidos, não se vê nada disso.

A televisão brasileira é a mais corruptora do mundo. Dom Lucas Moreira Alves viajou pelo mundo todo, conhece a televisão de 60 países, e garante que nunca viu televisão mais podre do que a nossa. É uma verdadeira escola de prostituição. Às sete, oito da noite, quando as crianças ainda estão na sala, liga-se a televisão e a sala de visitas se transforma num prostíbulo. A televisão brasileira é um curso acelerado de prostituição. Duvido que um pai de família tenha coragem de folhear uma revista pornográfica junto com suas filha de sete, oito anos. No entanto, esse mesmo pai de família assiste telenovelas que mostram essa mesma pornografia, só que não apenas graficamente, mas ao vivo, o que é muito pior.

Euler Belém — O que o senhor assiste na televisão?

O que ainda assisto, mesmo assim com um espírito crítico muito atento, são os telejornais. Programas, só de debate ou algum filme. Nos Estados Unidos já existe uma preocupação no sentido de que a televisão deixe de ser um vício para ser um lazer. Há um grupo alemão que acha que a criança não deveria assistir televisão até os 11 anos de idade. Eles entendem que o tóxico mais terrível da sociedade moderna é exatamente a televisão. A pessoa cria uma dependência absoluta da televisão. E sofre uma transformação psíquica, como ocorre com os usuários de cocaína, heroína. Quando cheguei à Diocese de Anápolis, em 89, ainda havia algumas cidadezinhas do interior que não tinham televisão. Dois anos depois de implantada a televisão, a situação era completamente diferente. As pessoas não eram as mesmas.

José Maria e Silva — Então, o que fazer? Censurar a TV?

Falar em censura deixa todo mundo ouriçado. Mas todos nós vivemos sob censura. Os tóxicos, por exemplo, são censurados. Eles representam um grande risco. Hoje, até o teatro, sob o pretexto de que arte é liberdade, virou bandalheira. É o sexo aberto.

José Maria e Silva — Além da violência e do sexo, o riso exacerbado, o escracho, também não são um corrosivo contra os valores morais? A Globo, por exemplo, já fez novela das sete em que Dercy Gonçalves fazia chacota de Deus.

O homem que não é alegre ou está doente ou é mau. A alegria é a cor de saúde da alma. Mas uma coisa é alegria, outra coisa é o deboche, o escárnio. Esse tipo de riso é um dissolvente terrível de qualquer valor. E é ele que impera, hoje, na televisão. O escárnio, o deboche, é um fenômeno das decadências. O homem chega a um ponto em que não encontra saída e resolve rir da própria desgraça. É o contrário do riso de um Machado de Assis, de um Suetônio, por exemplo, brilhantemente analisado por Viana Moog.

Euler Belém — Reginaldo Faria vai fazer um filme sobre o assaltante Leonardo Pareja e dois jornalistas estão fazendo sua biografia. Estariam promovendo o crime e, assim, patrocinando uma inversão de valores?

Diz o salmista que, “em toda a parte, os malvados andam soltos, porque se exalta entre os homens a baixeza” (Ps 11,8). Não se trata de explicar ou até desculpar os erros dos homens que sempre encontram pretextos para justificar os próprios crimes. O problema está em apresentar criminosos como heróis, super-homens. Porque a humanidade busca sempre a quem seguir e em quem se espelhar. Este é um dos segredos da importância do culto aos santos, que trazem para mais perto de nós, com nossas fraquezas, a perfeição divina de Cristo. Ora, hoje só nos dão anti-heróis, modelos perversos. Carlyle afirmou que “a história dos povos é feita da história de seus grandes homens”. Quais os grandes homens que a sociedade e a mídia nos oferecem? Valeria a pena repensar a lição de James Cagney no famoso filme Anjos de Cara Suja, de 1938.

Luiz Carlos Bordoni — A ficção de Morris West, As Sandálias do Pescador, poderia um dia se tornar realidade dentro da Igreja?

Morris West foi meu colega na Universidade Gregoriana de Roma. Ele foi sacerdote, fez filosofia e viveu uns quatro anos mais do que eu lá. Trabalha com um material muito vivo. Morris West fez a projeção de uma situação que começava a se delinear na época. Mas, então, ninguém poderia prever que João Paulo II seria a reviravolta que foi na Igreja.

Luiz Carlos Bordoni — João Paulo II não está em conflito com a Rerum Novarum?

Absolutamente. Basta ler suas enclíclicas para ver que há uma continuidade de pensamento. João Paulo II faz afirmações fantásticas. Ele diz que sobre toda propriedade grava uma hipoteca social, o que significa que o direito de propriedade não é absoluto. João Paulo II é um homem extraordinário. Evidentemente, tem muitos inimigos, que torcem para que ele saia. Mas sua saúde não está assim tão grave como disse a revista Veja. Estive com o papa este ano e, na audiência que ele teve comigo, pude perceber que ele estava muito debilitado. Era visível o sofrimento dele. Mas, dois dias depois, ele estava muito bem. Tem um poder de recuperação fantástico. E nisso está a contradição da Veja — ela afirma que ele está decrépito, mas depois reconhece que ele não desmarcou um item de suas agendas.

Luiz Carlos Bordoni — Essas informações que alardeiam a doença de João Paulo II não podem ser uma arma de muitos padres progressistas que desejam que ele morra?

Alguns talvez nem rezem para que o papa morra, simplesmente porque não acreditam na oração. (Risos) Alguns, eu não falei todos. Pelo amor de Deus, não venham me complicar... (risos). João Paulo II está recuperando alguns valores que foram jogados fora e estão custando caro não só à Igreja, mas à humanidade. E o papa tem muita coragem. Não é fácil falar o que ele fala nos Estados Unidos, na Irlanda. João Paulo II nos contou que Gorbachev chegou a dizer para ele: “O senhor não é alheio a essas transformações que estão ocorrendo no mundo comunista”. Também não era para menos — quando João Paulo II visitou a Polônia, o New York Times o chamou, em manchete, de “o homem que invadiu a Polônia”.

Euler Belém — O senhor acredita que o papa possa renunciar?

Já aconteceu renúncia de papa na história, mas não creio que João Paulo II renuncie.

Licínio Leal Barbosa — Dom Lucas Moreira Neves, cardeal-primaz do Brasil, teria chance de sucedê-lo?

O papa tem muita estima por dom Lucas, já pude constatar isso. Dom Lucas é um homem conhecido em todo o mundo. Sem dúvida, poderia ser papa.

Euler Belém — A Veja criticou dom Lucas sob o ponto de vista intelectual. Ele é um homem preparado?

Dom Lucas tem uma formação muito sólida, muito vasta. Evidentemente, hoje é impossível se saber tudo. As especializações se multiplicaram muito.




“Já tive uma crise de fé”


Luiz Carlos Bordoni — Em algum momento, o senhor chegou a vacilar na fé?

Quando comecei a estudar filosofia, tive uma crise muito forte. E, hoje, estou convencido que a vocação que nunca teve uma crise existencial não é suficientemente sólida. Eu gostava muito de estudar, lia muito e fiquei um pouco assustado. Tive um professor que me disse: “Tenha calma. Quando se estuda o dogma, se perde a fé. Quando se estuda a moral, perde a vergonha”. Depois, tive outra crise — queria ser missionário na China. Mas meu diretor espiritual me disse: “É uma ilusão de juventude”. E não me deixou ir. Como padre, teve uma época que fiquei estatelado. Tenho uma biblioteca em Anápolis. Muita gente vai estudar lá. De repente, vi todas aquelas coisas que eu apreciava serem contestadas de todo lado. Era uma situação angustiante. O próprio dogma, as Sagradas Escrituras... Então, um dia, relendo a história da igreja, vi que ela já foi atacada por todos os lados. Mas venceu e sobreviveu a todos os hereges e até os enterrou maternalmente.

José Maria e Silva — A contestação a que o senhor se refere vinha da teologia da libertação?

Sem dúvida. Mas a causa da nossa diferença com a teologia da libertação não é a questão social. Nessa área ela fez coisas muito boas. O problema é a fundamentação antiteológica da teologia da libertação. Leonardo Boff, em toda a sua obra, destrói, praticamente, todo dogma cristão. Em seu último livro, Igreja, Carisma e Poder, ele passa de vez para uma ecologia da libertação.

Licínio Leal Barbosa — Boff deixou o hábito?

Deixou o hábito, mas não o nome. O nome é importante. O nome é importante... Lamento muito. Boff é um grande talento. A teologia da libertação esvaziou o dogma de tal maneira, que só restou sociologia, psicologia e a guerrilha. Trocaram a fundamentação das Escrituras pelo dogma marxista.

José Maria e Silva — O senhor não acha que o Deus da teologia da libertação está se aproximando muito do Deus-energia do Movimento da Nova Era?

Exatamente. Essa é a fraqueza essencial da teologia da libertação. Chega num ponto em que não há nada mais em que apoiar. Sobra um panteísmo em que todos somos deuses. João Paulo II foi muito feliz quando disse que a maior desgraça do homem moderno foi ter perdido a noção do pecado. Caímos no subjetivismo moderno que faz do homem a medida da verdade.

Euler Belém — A teologia da libertação está na UTI?

De modo algum. A teologia da libertação continua ameaçando os seminários. Há seminários que resumem toda a teologia à obra de Boff. Por favor, os livros de Boff estão todos fora da linha da Igreja. Outro dia, na Venezuela, um seminarista me disse: “Aqui, o único teólogo vivo que nós conhecemos é Boff”. Agora, como o Catecismo da Igreja Católica, se tornou possível ter um norte. Mas fiquei sabendo que há padres que dizem que ele é “um escritorzinho da ala polaca do Vaticano”. Frei Betto diz que não fez teologia para não se enquadrar num sistema. Então, como se pode chamá-lo de teólogo? Alguém pode dizer: “Frei Betto vendeu 2 milhões de exemplares”. Simples: Fidel Castro comprou 1 milhão e 200 mil. Não sei se pagou, mas comprou.

Euler Belém — Qual o grande teólogo brasileiro de uma linha divergente da teologia da libertação?

O padre Bannwarth, que foi reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, tem estudos teológicos interessantíssimos. Infelizmente, ele já morreu.

Licínio Leal Barbosa — Qual é o papel de dom Hélder Câmara na formação do pensamento moderno da Igreja no Brasil?

Dom Hélder foi integralista. Ele projetou a Igreja do Brasil fora do Brasil. Não me agradava a maneira negativa com que ele se referia a todas as coisas do Brasil. Mas foi uma figura importante. Houve um tempo, entre 1965 e 1975, em que os bispos, no Brasil, só eram nomeados depois de passarem por ele.

Licínio Leal Barbosa — Houve uma certa época em que a CNBB parecia ter uma voz divergente em relação ao Vaticano, a um ponto de se falar em Igreja brasileira. Como o senhor avalia isso?

Não vou dar o meu testemunho, porque ele poderia ser suspeito, já que minha posição é muito clara. Vou pegar a opinião de um sacerdote irlandês que foi assessor da CNBB. Não me recordo o nome do livro, nem do autor. Sei que ele diz com todas as letras: “Quando se olha a Igreja do Brasil, logo se descobre os traços de Jesus Cristo. Mas, mudando um pouquinho o ângulo de visão, já não se sabe se é Cristo ou se é Marx”. A Igreja no Brasil já viveu um anti-romanismo muito acentuado. Em reunião de bispo, para se discutir liturgia, já ouvi um dos assessores dizer: “Acho que os bispos do Brasil precisam ter mais coragem e impor sua vontade a Roma”. Mas este anti-romanismo não é a vontade da maioria. Pelo contrário. Ocorre que essa maioria é quase silenciosa. Evidentemente, essa situação mudou. João Paulo II foi tomando as rédeas da Igreja no Brasil, com a nomeação dos bispos. Depois, a queda do Muro de Berlim representou um baque para a teologia da libertação.

Licínio Leal Barbosa — Com relação à Igreja da Holanda pode-se falar em cisma?

Tive uma experiência penosa com um sacerdote holandês. Ele me disse: “Quero uma igreja sem papa e sem bispo”. Sem disciplina, é claro. E não é fácil enfrentar a multidão, a opinião pública, ser apontado como quadrado, cafona... No fundo, o catecismo holandês acaba negando a realidade da eucaristia. Ele foi o germe de todas as doutrinas erradas que surgiram depois. E quando a Santa Sé exigiu a correção daquele catecismo, eles não aceitaram fazer as correções — limitaram-se a colocá-las como um anexo do texto.

Licínio Leal Barbosa — Na Holanda, chegou a se aceitar drogados fumando maconha dentro das igrejas.

Lá, houve o caso de uma igreja em que as pessoas podiam entrar nela com motocicletas. Imagina a maravilha na hora da consagração — uruuummm! (Risos). Isso foi a primeira vez. Da segunda vez, os motoqueiros deixaram as motos dentro da igreja e foram passear lá fora. O padre celebrava a missa para as motocas (Risos). É lamentável, mas perdemos duas gerações de catequese. Essas crianças que foram catequizadas por esses métodos modernos não sabem nada. Peguei um catecismo desses. Falava de Deus uma vez — e era na última página. Essa gente não é cristã coisíssima nenhuma.

Euler Belém — A atuação de dom Antônio aparentemente é muito discreta, se comparada à de dom Fernando, seu antecessor na Arquidiocese de Goiânia. Quais são os méritos dele? Dom Antônio faz bem em fugir da mídia?

São personalidades diferentes. Dom Fernando, um vulcão. Impetuoso, era assim mesmo capaz de pedir perdão a uma flor que suas larvas queimassem. As marcas positivas de sua passagem são evidentes. Dom Antônio, sereno, tímido, busca compor como pode. Hoje, ser bispo não constitui missão fácil. Muitas coisas devem-se resolver ou construir em silêncio. A mídia pode ajudar mas, frequentemente, a busca do sensacional, do fantástico, só atrapalha. Dizia-me uma velhinha lá no litoral norte de São Paulo: “Seu padre, feijão podre é que bóia. O feijão bom fica no fundo”. Quantas vezes descobri que ela tinha razão...

Euler Belém — Com a saída de dom Luciano Mendes de Almeida da CNBB, ela ganhou em substância religiosa e perdeu em militância política, entendem alguns. O que o senhor acha?

Creio, e o disse várias vezes em assembléias, que nos preocupamos demais com militância política e social, não sem algumas vitórias e muito desgaste na área religiosa. Não podemos fugir à responsabilidade política. É o quarto mandamento. Mas correr o risco de identificar-se com partidos que, programaticamente, defendem posições anticristãs, como aborto, esterilização ou contracepção, “casamentos” homossexuais etc., é comprometer a nossa própria natureza e desorientar os fiéis. Nada do que se faz é eficaz sem atingir e formar, cristãmente, a consciência e o coração dos homens. Aí está o essencial da missão da Igreja, sem o quê o resto é resto.

Euler Belém — Alguns dizem que o movimento dos sem-terra não é ideológico: as pessoas estariam apenas em busca de terra para produzir. Outros asseguram que o movimento é ideológico: entre os sem-terra, muitos seriam petistas ou de outras correntes políticas. O objetivo deles seria perturbar a ordem social. Como o senhor avalia a questão?

Uma coisa é a reforma agrária que, cada vez mais, se mostra necessária e urgente, outra coisa é o movimento dos sem-terra. Perguntei certa vez a um bispo responsável pela Pastoral da Terra se era verdade que 80 por cento dos títulos concedidos em Goiás já tinham sido vendidos. Respondeu-me que não podia ser tão preciso, mas o número de tais casos era elevado. Insisti, estranhando que, dessa forma, não ajudávamos para a solução de um problema social, mas fomentávamos a indústria da invasão. Disse-me que eu não estava entendendo nada: podíamos não resolver o problema, mas estávamos desestabilizando o sistema. Protestei. Dessa forma, não servíamos deles para um objetivo político. Isso foi mais ou menos em 1980. Uma coisa é quem puxa os cordéis, outra, os que são levados, de boa fé e até entusiasmo. Em tudo isso, há muitos equívocos e não poucos mistérios. Entretanto, a verdade é que nesses acontecimentos aparece clara a multidão de carentes e empobrecidos que exige de nós grande senso de justiça e a coragem política do bem comum.

Euler Belém — Como o senhor avalia o trabalho pastoral de dom Pedro Casaldáliga e de dom Tomás Balduíno?

Não fui constituído juiz de meus irmãos. Evidentemente, penso que, sem contestar os seus méritos, nunca assumiria algumas de suas atitudes. Alguma coisa mudou, é claro. Entretanto, prefiro privilegiar o sobrenatural da ação da Igreja.

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“A Revolução de 64 foi um alívio”


Luiz Carlos Bordoni — Como o senhor avalia, hoje, o regime militar de 64?

Sobre o período imediatamente anterior ao regime militar, não se tem mais coragem de dizer nada. Mas 63 foi terrível. Vivi em Santos. Lá, apenas neste ano, tivemos 97 greves. Inclusive uma greve de coveiros, numa cidade com 40 graus à sombra. O mau cheiro dos cadáveres em decomposição era terrível. Meu pai era doqueiro no porto de Santos. Meu avô era estivador. Quem não aceitava aquela linha de greves e mais greves era simplesmente eliminado. O ministro do Trabalho da época, Valdemar Falcão, chegou a ir a Santos, apavorado com o número absurdo de acidentes de trabalho. Meu pai, por exemplo, foi atacado porque não quis coletar contribuições para o Partido Comunista entre os operários de sua turma. Ficou hospitalizado três meses por causa disso. A revolução de 64 foi uma revolta popular, porque ninguém mais suportava aquilo. Claro que, depois, foi usada. Todo poder corrompe. E o poder absoluto, corrompe absolutamente.

Euler Belém — O senhor participou daquelas marchas contra o governo João Goulart?

Participei, e de modo convicto. Mas tive uma grande decepção, logo no 1º de abril, quando foi eleito para vice-presidente o Alkmin. Todo mundo esqueceu qual foi o voto de um padre de São Paulo, no Congresso. Indignado, ele votou assim: “Para vice-presidente, Félix Galdeano”. As pessoas abafaram o riso, com medo. Félix Galdeano tinha sido o agenciador da famosa tramóia uísque a meio dólar. Nós nos sentimos traídos nessa hora, mas, antes, havia o perigo iminente de uma República sindicalista. Meu bairro era chamado de Kremlin, e Santos era a Moscou brasileira. Santos tinha 67 sindicatos. Quem levantava a voz contra essa situação era ameaçado de morte.

Euler Belém — João Goulart tinha algo a ver com isso? Ou foi um inocente útil?

Não tão inocente, mas era bastante útil. Felizmente, a maldade do homem é sempre maior do que sua inteligência, daí porque não existe crime perfeito. Jango foi uma vítima também, mas uma vítima consciente. Fazia parte da engrenagem.

José Maria e Silva — Como o senhor avalia o governo de Fernando Henrique Cardoso?

Fernando Henrique Cardoso continua sendo um enigma para mim. Estou com muito medo. Fernando Henrique integrou o Cepal. Também participou do famoso Fórum de São Paulo, que uniu os líderes da América Latina sob a liderança de Fidel Castro. Acho que ele prestou um grande serviço ao estabilizar a moeda, mas não podemos sacrificar tudo à moeda, como se fosse um bezerro de ouro. O que está faltando, além de coragem, é força política para impor certas reformas. Outra coisa que chegou ao absurdo, no Brasil, é a impunidade.

Euler Belém — O senhor está falando como uma pessoa de esquerda?

Não. Estou falando como uma pessoa que tem consciência dos valores cristãos.

Euler Belém — O senhor não acha que a política em Anápolis anda um tanto esquentada?

Evidente, se tudo é de fato como aparece. Penso que ainda deva haver muito estouro até que a pipoca salte e encha a panela. Seria muito bom se todos se deixassem investir pelo espírito do bem comum.
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“Renan é o poeta da mentira”


Euler Belém — O trabalho de Huberto Rohden, autor de O Drama Milenar do Cristo e do Anti-Cristo, tem consistência teológica e filosófica? O que acha do livro citado?

Não conheço o livro, logo não posso julgá-lo. Seminarista de calças curtas, lia seus livrinhos açucarados do Apostolado da Boa Imprensa. O seu Paulo de Tarso, para nossa decepção, resultou ser, em boa parte, plágio do alemão Hollzsmeister, se não me engano. Depois, ele deixou os Jesuítas e, finalmente, o sacerdócio. Recebeu uma bolsa para pesquisas científicas em Princeton; freqüentou três anos o Golden Lotus Temple, de Kriya Yoga, em Washington, percorreu o Oriente em busca da mística. Promoveu cursos em Goiânia e Brasília sobre o que chama de Filosofia Univérsica e Filosofia do Evangelho. Homem de muitas palavras novas e idéias mais antigas, como macrocosmo mundial e microcosmo hominal, misturou um pouco de Ocidente com muito do Oriente, apresentou um amálgama de ciência, filosofia e esoterismo gnóstico, bem ao gosto da mentalidade místico-poética de muitos dos nossos contemporâneos.

Euler Belém — Rohden cita Nietzsche: “Se o Cristo voltasse ao mundo, a primeira declaração pública que faria a todos os países seria esta: ‘Cristãos de todas as igrejas, sabei que eu não sou cristão — eu sou Cristo”. Trata-se de uma crítica aos cristãos?

Não afirmo que todas as críticas aos cristãos sejam injustas. Evidentemente, tanto Nietzsche quanto Rohden não nos poupam. Somente Cristo é Cristo. Não passamos de suas pálidas imagens, na melhor das hipóteses. Podemos ser sua morada, mas sempre infinitamente longe dele. Para nossa desgraça, muitas vezes de cristãos temos apenas o rótulo. “Não é quem diz: Senhor, Senhor! que entra no reino dos céus, mas quem faz a vontade de meu Pai, esse entra no reino dos céus” — disse Jesus. Para o cristão, cada instante é uma oportunidade que Deus lhe dá para ser melhor. Quem se julga suficientemente bom, já começa a ser ruim.

Euler Belém — Qual é a biografia mais completa de Jesus Cristo? É a de Renan?

Pelo amor de Deus! Renan é anticristão. É o poeta da mentira. Ele embrulha tudo. Muitos jovens se perderam lendo Renan. Leiam um brasileiro que fala dele, Paulo Setúbal, no Confiteum.

José Maria e Silva — O senhor leu Renan com prazer?

Vou fazer uma comparação meio absurda: um castelo de esterco, mesmo sendo de esterco, é um castelo e pode ter muita coisa bonita. A maior biografia de Cristo, sem dúvida alguma, é a de Ricciotti, A Vida de Jesus. Quem quiser um livro mais literário sobre Jesus, e também sério, deve ler Plínio Salgado.

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A crença no humanismo


Euler Belém — É admirável a relação da Igreja Católica com a palavra, tradição que vem da cultura judaica. Mas, modernamente, a Igreja vem-se afastando dessa tradição. A liturgia não tem mais a mesma solenidade de antes e os padres demonstram ter pouca intimidade com o idioma. Como o senhor avalia essa queda do padrão cultural do clero?

Somos um pouco o reflexo da própria situação geral. Hoje em dia é difícil encontrar, por exemplo, um advogado que escreva uma petição sem cometer dois erros por linha. O problema da Igreja, hoje, é o fim dos seminários menores.

Licínio Leal Barbosa — Como o senhor avalia a substituição do canto gregoriano pelos cânticos laicos, profanos?

Recentemente, estive relendo o que Platão diz sobre os cantores. Ele diz que os cantores amolecem o caráter, por isso deveriam ser expulsos da cidade. Hoje, com essa vontade de se amoldar ao mundo, muitos setores da Igreja substituíram a música-oração pela música mensagem. E a música-mensagem, às vezes, pode ser até o ritmo, o grito, o berro. Já o canto gregoriano é recolhimento, é elevação. Pesquisas recentes descobriram que o canto gregoriano tem até mesmo um efeito terapêutico. Um grupo de pesquisadores alemães constatou que os doentes mentais ficam mais tranqüilos quando ouvem música clássica, ao passo que se agitam ao ouvir rock. Já um italiano notou que, com o canto gregoriano, se ia além dos efeitos da música clássica — o doente mental não apenas ficava tranqüilo como também entrava num processo de recuperação. Em Paris, há um cientista que se utiliza do canto gregoriano na cura de doenças mentais. Ele descobriu que os tons altos do gregoriano correspondem ao tom de voz da mãe quando fala com seu filho no útero. E é bom salientar que os tons altos da música de Mozart têm íntima relação com os tons altos do canto gregoriano. O mercado fonográfico redescobriu o canto gregoriano. Tudo começou com os monges da Abadia de São Domingos, que gravaram um disco. Mas eles se agastaram e não querem gravar mais. O canto gregoriano estava sendo usado até em strip-tease. Estava virando uma profanação sem limites. Em Anápolis, no seminário, estamos tentando recuperar o canto gregoriano.

José Maria e Silva — Além do canto gregoriano, o latim também foi jogado no lixo?

Infelizmente. O que é um crime. O latim é mais que um idioma — é um xadrez que esclarece o pensamento. O latim me leva à saudável ginástica mental. Evidentemente, não sou favorável à volta da missa em latim, porque não há mais condições culturais para isso, mas creio que seria salutar que sempre houvesse missas em latim para aqueles que querem. Na Europa, há igrejas que ainda hoje reservem horários para missas em latim. E há muitos fiéis que gostam.

José Maria e Silva — O senhor é a favor da missa em latim com o padre virado de costas para o público?

O padre nunca esteve de costas para o público — ele esteve à frente do público, virado para Deus. É uma questão de interpretação. E a missa atual coloca o padre de frente para o público e para Deus, que fica no centro, no altar. O que também é muito positivo. O que ocorre é que muitos sacerdotes se esqueceram que sua função é interligar o povo a Deus e se coloca como o centro da missa, se transformando num showman. É lamentável ter que dizer isso, mas há certas missas que não diferem muito de programas de auditório da televisão.

José Maria e Silva — Como o senhor avalia as missas afro-brasileiras, que incorporam a dança e o batuque à liturgia?

Entendo isso como uma volta ao que nunca existiu. Todo esse movimento negro no Brasil, em termos culturais, surge com Nina Rodrigues (1862-1906). Os negros no Brasil são todos assimilados. Não vou discutir, aqui, como se deu esse processo de assimilação, mas o que importa é entender que, em termos culturais, o negro brasileiro não é africano. Pelo amor de Deus, é preciso entender isso.

Euler Belém — O avanço tecnológico, ao contrário do que se esperava, não afastou o homem de Deus. Mas do que nunca as religiões e seitas estão fortes. Por quê?

Na abertura daquele fantástico livro de Santo Agostinho, As Confissões, ele diz mais ou menos assim: “Senhor, tu me fizeste para ti, e o coração humano não encontrará repouso senão em ti”. O homem não é um animal aperfeiçoado, uma parcela de um jogo matemático-econômico — ele é pó, mas é pó com sopro divino. E o coração do homem é insaciável. O mundo de hoje não quer acreditar em Deus e acaba absolutizando o relativo, eternizando o temporal. O homem moderno enche o coração de novidades, de tecnologias, de ilusões, mas no fundo seu coração está vazio.

Euler Belém — O que o senhor acha da pílula anticoncepcional e da camisinha?

A pílula anticoncepcional foi recursos descoberto com objetivos terapêuticos, para mulheres que sofriam de dismenorréia. Depois é que passou a ser utilizada como anticoncepcional. E aí vieram os problemas, morais e físicos. A pílula abriu as portas para toda a degradação moral que estamos vendo. Já em relação à camisinha, para mim há algo de satânico, de diabólico na campanha que recomenda seu uso. Dizer que o uso da camisinha é o sexo seguro contra a Aids é um crime. Numa relação sexual, cerca de 10 por cento dos espermatozóides passam pelos poros da camisinha. E o vírus da Aids é muito menor que o espermatozóide, obviamente, passa muito mais. Nem precisa dizer o que acontece.

José Maria e Silva — Uma adolescente, virgem, é estuprada violentamente. Ao cabo de um mês após o estupro, quando ainda não conseguiu se recuperar do trauma sofrido com a violência, ela descobre que está grávida do estuprador. Se ela optar pelo aborto, será condenado ao inferno?

Se ela, antes adolescente e virgem, optar pelo aborto, já está condenada ao inferno nesta vida, pelos remorsos da consciência, avivados a cada choro, a cada sorriso ou a cada passinho de criança que poderia ser a sua, se não a tivesse matado. Não é sem razão que 85 por cento das mulheres internadas em casas de saúde mental nos Estados Unidos, país tão liberal, têm na sua história pelo menos um aborto. Falo de opção. Mas mesmo quando apenas cede à pressão, à chantagem ou ao desespero, a angústia não é menor. O problema é que o aborto é assassinato frio de um inocente, que está vivo e não tem nada a ver com o que fizeram. Não se pode obrigá-la a ficar com o filho, mas não é possível simplesmente convidá-la a ser assassina. O aborto é o crime mais frio, mais cruel, mais absurdo da nossa época.

Euler Belém — Os governos dizem que a escola pública está melhorando, mas ela ainda está aquém do que a sociedade espera. O que está faltando para a escola pública melhorar?

Muita coisa. O Relatório Coleman ao Senado Americano dizia que as escolas sem filosofia de vida apresentam não só mais graves problemas de disciplina e moralidade, mas também de menor aproveitamento escolar. Ele afirmava que esta era a razão da decadência da escola pública nos Estados Unidos. Não se pode pretender somente erudição, principalmente hoje, quando os bancos de dados são tão numerosos, ricos e acessíveis. Se a escola não forma para a vida, ela fracassa. A educação não acontece sem valores humanos apresentados. Se a própria escola, a partir do testemunho dos professores, não educa por tudo o que é e tem, é inútil e prejudicial. Não se educa por um aglomerado de conhecimentos científicos, mas por uma estruturação de valores humanos, que uma formação humanística pode dar. Supercérebros arriscam-se a se tornar supermonstros. O coração, a sensibilidade, a consciência, a vontade são áreas essenciais da personalidade humana. E disto, pouco se cogita ou se cogita mal. Valorizar os professores, sim, mas qualificando as verdadeiras vocações ao magistério, em cujas mãos se prepara, em grande parte, o futuro das novas gerações.

Euler Belém — O que está acontecendo com os jovens que, cada vez mais, procuram drogas, como cocaína, maconha, cigarro e álcool?

Os nossos jovens são, em geral, frutos e vítimas de uma sociedade consumista, materialista, imediatista, ávida de prazer, fabricada ou explorada pela mídia, bem ao gosto e a serviço dos que querem conduzir os homens como massa de manobra, inconsciente do seu destino pessoal. Quando faltam ideais de grandeza e auto-estima, já não se sabe o que fazer da vida. Aí vale tudo para se fugir de uma liberdade inútil e de uma responsabilidade absurda. Foge-se nas asas de um sonho químico, na loucura de um ritmo alucinante e alienante, na degradação do sexo sem dignidade e amor, ou até na superatividade estressante de quem não quer ter tempo nem para pensar. Precisamos de apóstolos capazes de atrair o jovem, pelo entusiasmo e pelo testemunho, a uma estrada de sacrifício e heroísmo. Porque os que ainda têm condições de atender a esse apelo — e não são poucos — poderão, à falta de autênticos valores, deixar-se seduzir pelo brilho efêmero de ideologias de morte e escravidão, inclusive pelo culto a satã, “homicida desde o início” e “pai da mentira”, como o chama Jesus. No fundo, todos sentem que só vale a pena viver quando se encontra uma causa pela qual valha a pena morrer. E a vitória sobre a morte, só Cristo no-la dá, pela sua morte e ressurreição. Sem ele, não há caminho, nem verdade, nem vida.

Euler Belém — O conflito da Globo com a Igreja Universal do Reino de Deus teve só componentes comerciais? O que o senhor acha da igreja dirigida por Edir Macedo, que se intitula bispo?

O conflito da Globo com a Igreja Universal é problema deles. A atitude infeliz e grosseira do “bispo” que agrediu a sensibilidade cristã do povo é mais profunda do que se esperava. Despertou até a consciência católica, não só para o amor a Nossa Senhora, mas também para o clima de real perseguição que estamos sofrendo em todos os campos. O fato de ter-se a Globo aproveitado isso para combater a rival, não a redime das iniqüidades que pratica diariamente contra os princípios cristãos. Nessa altura, são dignas uma da outra.

José Maria e Silva — Os evangélicos costumam dizer que Anápolis é uma cidade evangélica. Foi lá, por exemplo, que começou a Assembléia de Deus em Goiás, a maior denominação evangélica do Estado. O Senhor concorda que, em Anápolis, os evangélicos chegaram, de fato, a uma espécie de poder espiritual?

Não se pode esconder a influência das igrejas evangélicas em Anápolis. Mas os diversos horários de santas missas, tanto aos sábados e domingos, como em dias de semana, mostram uma larga participação católica. Não falo só dos momentos fortes da liturgia: Natal, Semana Santa, Páscoa, Pentecostes, Corpo de Deus. A Campanha da Fraternidade, os movimentos marianos e a recitação do terço em família, as manifestações pró-vida etc., confirmam ativa presença católica. Quando cheguei, a estatística oficial dava 83 por cento de católicos (sei que não poucos e são de nome apenas). Depois, creio que em 89, a estimativa era de 80 por cento. Cheguei a reclamar que tivessem tirado o item “religião” dos recenseamentos. Entretanto, nossas igrejas estão cheias, o atendimento é satisfatório, os movimentos, em geral, dinâmicos, a catequese extensa. Sempre há muito por fazer. Mas os números não nos preocupam. As vidas, as almas, sim.

Euler Belém — O senhor já teve simpatias pelo marxismo?

Não. Que me desculpem, mas para ler um livro como O Capital é preciso ter muito estômago. Tenho este livro numa edição espanhola. Marx foi satanista aos 17 anos, teve um filho com a empregada, deixou dois filhos morrerem de fome. Era um homem completamente irresponsável. E toda obra, de alguma maneira, é autobiográfica — ela assimila as fraquezas do autor.

José Maria e Silva — Não há dúvida que o pensamento de Marx é disforme e até confuso, assim como o de Max Weber, segundo alguns críticos. Mas Marx não tem nada de aproveitável? O senhor desconhece a importância dele como pensador?

Marx tem algumas coisas importantes. A Questão Judaica, por exemplo, é interessante.

José Maria e Silva — Como o senhor avalia a participação dos leigos nos sacramentos católicos, inclusive manipulando a hóstia?

Acabo de traduzir um livrinho sobre o assunto. É de um autor italiano e se chama O Complô Contra os Sacerdotes e a Eucaristia. A gente tem impressão que houve um plano para fazer o povo perder a fé na eucaristia. A manipulação fácil da eucaristia quebra toda sua riqueza e a sensibilidade.

Luiz Carlos Bordoni — Como o senhor se posiciona em relação à pena de morte?

Não defendo a pena de morte, mas entendo que se um organismo chega a uma situação em que só cortando um dedo podre ele é capaz de se recuperar, então, esse dedo tem que ser cortado. O próprio Cristo prega isso na Bíblia, em relação aos homicidas vinhateiros. Se uma sociedade não tem o direito de eliminar um sujeito que está pondo em risco a sobrevivência dela, então, ela está indefesa perante a própria ruína.

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O talento goiano


Euler Belém — Fora a Bíblia, o senhor tem um livro de cabeceira? Lê algum poeta em especial?

Em cima do meu criado-mudo há sempre pelo menos cinco livros. Leio um pouco, antes de deitar, qualquer que seja a hora. A escolha depende da disposição. Chesterton (1874-1936), por exemplo. Ou Gustavo Corção (1896-1978), Lições de Abismo. Hugo Wast, o grande escritor argentino. Virgil Gheorghiu da 25ª Hora e suas deliciosas memórias. Ricciotti, A Vida de Jesus, São Paulo, A Igreja dos Mártires, História de Israel, Com Deus ou Contra Deus, Deus na Pesquisa Humana. Padre Antônio Vieira, incomparável. Às vezes, Agatha Christie. Freqüentemente algum livro de filosofia, ligado às disciplinas que estou lecionando. De poetas, li mais antologias, tão úteis para a formação do estilo. João de Deus, Campo de Flores, o mestre da simplicidade. Castro Alves, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Primavera, muitos sonetos de Camões, Bocage e Antero de Quental, Álvares de Azevedo. O tempo não é muito para as ocupações obrigatórias.

Euler Belém — Quais os autores goianos que o senhor gosta de ler?

A primeira coisa que fiz ao receber do senhor núncio a notícia de que o Papa me queria bispo de Anápolis, foi ler na Enciclopédia dos Municípios tudo sobre as regiões da diocese. No seminário menor, ganhara, de prêmio escolar, o livro Lá Longe no Araguaia. Soube aí que existia Meia Ponte, Antas e outras coisas. Monsenhor Primo Vieira fora meu pároco e professor no Seminário Maior. A família morava em Catalão, outro nome amigo no meu pequeno universo. Mas ao chegar aqui, infelizmente, encontrei tanto o que fazer que tive que deixar a literatura. As dificuldades do início me bloquearam também os contatos com a gente de letras. Conheci Ursulino Leão, Gelmires Reis, Haydée Jaime. Li versos de Cora Coralina, José Mendonça Telles. Soube que Bernardo Élis era originário da diocese. Assíduo freqüentador de jornais, pude encontrar com alegria alguns excelentes prosadores. Gostaria de fazer mais justiça ao talento goiano.

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Força revolucionária


Licínio Leal Barbosa — Goiás deve ao senhor ter trazido aqui, em agosto de 1984, um autor famoso em todo mundo, Virgil Gheorghiu, autor da 25ª Hora e a Espiã. Qual a contribuição dele para os tempos modernos?

A contribuição dele é fantástica. Espero que não seja esquecido. Escrevi no prefácio que fiz para A Espiã que ele era um desses autores malditos. Muitas enciclopédias sequer o citam. No entanto, 25ª Hora foi considerado um dos grande romances da literatura, por ninguém menos que o filósofo francês Gabriel Marcel. Virgil Gheorghiu é por todos e contra todos. Num de seus livros, O Exterminador, ele mostra como Stalin considerava a religião sob o aspecto de sua força revolucionária.

Licínio Leal Barbosa — Naquela noite em que estivemos, no apartamento do escritor Ursulino Leão, com Virgil Gheorghiu, a Bandeirantes exibiu o filme 25ª Hora. O senhor teve influência nisso?

Sim. Insisti para que o filme fosse veiculado durante sua estada aqui. 25ª Hora significa a hora depois do tempo. Houve até um espanhol, Cabo de Villa, que escreveu um livro chamado 32 de Dezembro. Gheorghiu também inspirou Buñuel, em um filme engraçadíssimo sobre um ateu que fala em Deus o tempo todo.

Licínio Leal Barbosa — Como o senhor conheceu Virgil Gheorghiu?

Li Gheorghiu, pela primeira vez, quando estava começando meu magistério em Santos. Eu me empolguei com ele e passei a utilizar suas obras em minhas aulas. Uma de minhas alunas, que era professora de um grande instituto de educação, também fez o mesmo com seus alunos, que resolveram escrever para ele. Falaram de mim e, com isso, se estabeleceu o contato entre nós. Estive em sua casa em Paris, e o convidei, em 84, para ser um dos conferencistas da Semana Internacional de Filosofia em Petrópolis. Gheorghiu estava preocupado com o futuro de sua obra. Havia um documento na KGB, com sua assinatura, falsa, cedendo todos os direitos de sua obra para a KGB. Mas o governo soviético caiu, e ele ainda sobreviveu por algum tempo.

Euler Belém — O que o senhor acha do cinema de Pasolini e de Felini?

Pretendo enviar uma carta à comissão de cinema que incluiu o Evangelho de São Mateus, de Pasolini, na lista dos grandes filmes. Mas Pasolini reduz Cristo à figura de um reformador social. Mais nada. Um de seus filmes, Teorema, até recebeu prêmio da Organização Católica Nacional de cinema, da Itália, mas já era possível perceber que Pasolini estava indo pelo caminho errado. Apesar de alguns possíveis valores "técnicos e até poéticos, a obra de Pasolini é extremamente negativa. Pasolini acabou sendo uma espécie de Voltaire do cinema.